sexta-feira, 24 de junho de 2016

O FIM DE UM CICLO


Bolo de aniversário para os 30 anos da AFDP (2012)
Regressada de um continente diferente, onde a calma e a informalidade facilmente se entranham no nosso ADN, dou por mim parte integrante de uma associação e de uma causa. Foi um tempo de entrega completa à AFDP, a todas as suas actividades e claro, ao Bazar Diplomático. 

Cinco anos foi o tempo de paragem em terras lusas. Esta participação na AFDP representou para mim uma aprendizagem importante para a vida que abracei. Tive oportunidade de participar no desenvolvimento de um trabalho salutar em prol da defesa das famílias dos diplomatas, no despertar de consciências e reivindicações.  Saber ouvir testemunhos antigos, vivenciar experiências reais, fez-me perceber as fragilidades. E são muitas, para a família e principalmente para o cônjuge. E é nesse sentido que se levanta a voz da AFDP.

Também participei em inúmeros eventos e visitas destinadas a acolher e integrar em Portugal o corpo diplomático estrangeiro. Esta panóplia de línguas e costumes enriquecem também a nossa cultura. E é bom saber que se sentem bem em Lisboa.

Outro desafio foi o do Stand de Portugal integrado no Bazar Diplomático. Um orgulho imenso por ter feito parte desta equipa que há anos consegue milagres em dois dias. Os montantes angariados foram integralmente distribuídos por instituições de solidariedade social, em áreas muito diversificadas. E o Stand de Portugal vestiu-se sempre do melhor que se produz a nível nacional. Foi um prazer enorme trabalhar para esta causa tão nobre e constatar que apesar de todas as adversidades conjunturais o povo português continua solidário e amante da beneficência. Obrigado a todos os que nos ajudaram a ajudar e a realizar sonhos.

Dra Maria Cavaco Silva - Entrega de donativos 2016
Entrega dos donativos do Bazar de 2016

E é tempo de voltar a partir, seguindo o marido numa nova aventura, desta feita para mais longe. De armas e bagagens deixaremos um Portugal pacífico, temperado, resignado e sonhador, e aterraremos em terras de Sua Majestade, que respira informalidade sob uma capa de regras e leis rígidas, mas que fazem toda a diferença. Só tenho ouvido elogios, muitos em jeito de suspiro, desta terra de desertos e planícies, de cangurus, do surf e do rugby. Espera-nos seguramente uma cidade desenvolvida, cosmopolita, onde a informalidade aparece a cada canto e onde o povo se diz amistoso. A integração levará o seu tempo, mas com a família unida, tudo será sempre mais fácil. Esse é o segredo da vida de um diplomata.



Resta-me agradecer a todos aqueles com quem privei ao longo destes anos, o respeito, a educação e o reconhecimento que amavelmente me demonstraram. Ser reconhecida pelo trabalho desempenhado e ser elogiada por todos é algo que levarei no meu coração e na minha alma. Vou e o ciclo se encarregará de me fazer regressar e abraçar novos desafios.

Continuarei a alimentar estas páginas, Contando Vivências, para que em jeito de desabafo, façam parte desta nossa nova aventura. Juntos descobriremos o mundo. 

Até breve
CSD

segunda-feira, 20 de junho de 2016

FAIAL E PICO


"ANTES MORRER LIVRES QUE EM PAZ SUJEITOS"*

Ilha do Pico
Quando o dia de Portugal e o dia de Santo António se juntam, lisboeta que o é de raiz, ruma a qualquer sítio! E nós, rumámos às Ilhas. Faial e Pico foram as contempladas. Quatro dias para espairecer, para descansar a mente e repousar o olhar em paisagens especiais. Estas duas pérolas do Arquipélago Açoreano são locais ideais para uma escapadinha maravilhosa. Vou-vos contar!

O início desta viagem foi uma surpresa. Lisboa-Horta tinha tudo para ser um voo directo de 2h25m, mas não o foi! Por condicionalismos atmosféricos na Horta, fomos literalmente desviados para uma viagem de várias escalas. Primeiro o embarque em Lisboa no recentemente nomeado Aeroporto Humberto Delgado já com duas horas de atraso. Destino: Ilha Terceira. Chegados à terra do sr. meu marido, novamente embarque para o Pico, com mais um atraso de 2h. Chegados ao Pico e com a noite a aproximar-se a passos largos, mais uma viagem de 30m, desta feita no Mestre Simão, rumo ao Faial. E às 23h30m, ei-nos finalmente chegados ao Faial Resort Hotel. Parece-me bem que foi uma preparação divina para o que se avizinha em Agosto! Cheira-me!

A manhã de sábado pôs cara feia. A Horta recebeu-nos com um céu muito pesado, um nevoeiro denso e uma tonalidade escura. Um manto branco de nuvens baixas cortava qualquer réstia de paisagem, mas mesmo assim não desanimámos e imbuídos do espírito aventureiro, iniciámos a descoberta.   

Centro da Horta vista do mar
Faial Resort Hotel (edificio rosa) e Marina
Marina do Porto Pim
Horta
Já munidos de viatura própria, partimos à exploração da ilha do Faial. Pela Nacional R1-1 fomos desbravando caminhos em busca de surpresas, maravilhas e claro, do ex-libris: a caldeira. Infelizmente o nevoeiro também se fez convidado e chegados ao local, a paisagem imaculadamente branca cortou-nos as vistas. Ficou a tentativa possível e o desejo de voltar.

Caldeira do Faial
De regresso à Horta, o almoço impunha-se. O Peter's Café Sport na marginal é local obrigatório para marinheiros e não só. Peixão no forno foi o nosso repasto, acompanhado por memórias náuticas.

Peter's Café Sport depois de um Peixão no forno.
Peter´s Café Sport

Seguiu-se a visita ao museu Scrimshaw, onde pequenas maravilhas gravadas em dente e osso de baleia nos transportam para a faina difícil e cruel que caracterizou tempos idos. Um belo museu a não perder! Seguiu-se o Museu da Família Dabney, importante Cônsul americano que dinamizou a ilha, o Aquário do Porto Pim, uma estação de peixes vivos e a Fábrica da Baleia, onde se retrata toda a faina da caça à baleia/cachalote. Retratos impressionantes da árdua vida dum ilhéu. A visitar.

Miradouro da Casa de veraneio da Família Dabney
Ao entardecer, um passeio pela Marina do Porto Pim, onde se encontram as famosas pinturas nos murais do porto, as quais retratam as passagens de barcos e marinheiros pela Horta. Terminámos o dia com um jantar no restaurante Cagarro, lá para os lados da praia do Almoxarife. 

Porto Pim
Forte de Santa Cruz
Domingo amanheceu igual. Dizem as gentes locais que "não sabem o que se passa. Que não é tempo disto!" O certo é que partimos rumo à Ilha do Pico sem certezas de boas vistas. Após uma viagem de 30m no já conhecido Mestre Simão, atracámos na Madalena. O tempo não era muito e para ser bem aproveitado contratámos um guia que nos desbravou os caminhos do Pico. Com a Dª Maria ao volante, iniciámos a subida sem grandes esperanças, confesso! Mas a natureza tem coisas surpreendentes, e passadas as nuvens, ei-lo que se mostra em todo o seu esplendor. 

Montanha do Pico

A escalada ficou para mais tarde!
7 horas de escalada a pé, num trilho acidentado até ao cume não estava nos nossos planos por isso, continuámos viagem sobre rodas.  Ora sol, ora nevoeiro fomos vendo o que a natureza permitia. O almoço foi nas Lages, sob um manto de nevoeiro e alguns pingos de chuva. Voltámos a subir em busca do sol e apesar da Lagoa do Capitão estar dissimulada no nevoeiro, a ponta Rasa em São Roque do Pico contemplou-nos com vistas soberbas. Seguiram-se várias localidades estrada fora, sempre acompanhados de vegetação verde e abundante, protegida e classificada. A Dª Maria foi a guia perfeita, despertando a nossa atenção para pormenores interessantes e locais pitorescos que só um ilhéu conhece. Santo António, Ponta Negra, Arcos, Lajido, Cachorro, Criação Velha foram-se seguindo numa diversidade de negro, azul e verde. As piscinas naturais piscavam o olho e chamavam-nos para um mergulho paradisíaco, mas a jornada impunha-se com muita pena do nosso petit!

Lagoa das Lages
Piscinas naturais
Praia vulcânica
Lajido

Cachorro
Por fim e não menos importante, o prémio de arquitectura ArchDaily para o edifício do ano de 2016. Fica no lugar da Barca, na Vila da Madalena, e é nosso. Chama-se Cella Bar e é soberbo.

Cella Bar
Janela Cella Bar
Vigia Cella Bar
Praia da Vila da Madalena
Impunha-se o regresso à Horta. À hora marcada e após o apito do Mestre Simão, dissemos adeus ao Pico e atravessámos o canal rumo ao Faial. Foi um belo dia.


Segunda, feriado em Lisboa, dia de Santo António, dia do regresso ao continente, mas ainda tempo para desbravar um pouco mais da Horta. De mãos novamente no volante fomos picar o que faltava. Conceição, Praia do Almocharife, Ribeirinha, Salão, Cedros, Praia do Norte e claro, Vulcão dos Capelinhos. 

Praia do Almoxarife
Salão
Salão
Cedros
Cedros
E para terminar, na ponta dos Capelinhos entrámos numa paisagem lunar, de um negro profundo e de um silêncio esmagador. No ponto mais ocidental da Europa, os 13 meses de erupção submarina fruto de duas erupções distintas (1957/1958), culminaram numa paisagem que tem tanto de surpreendente como inóspita. Ainda é considerado um vulcão activo. Ainda bem que no dia de Santo António estava a dormir!

Vulcão dos Capelinhos
Ponta dos Capelinhos
Farol
Centro de Interpretação situado no subsolo
Arrasado!

O voo Horta-Lisboa, desta feita sem sobressaltos, depositou-nos na capital já adormecida, trazendo-nos de volta à realidade do cimento, da poluição e da vida apressada. Ainda há paraísos na terra, terra que é de Portugal, pais tão pequenino mas com um diversidade tão grande que nos enche a alma e o coração. É tão bom pertencer a este cantinho. Vai deixar saudades. Viva Portugal!

CSD


Nota: A divisa Antes morrer livres que em paz sujeitos, é retirada de uma carta escrita em 13 de Fevereiro de 1582 por Ciprião de Figueiredo então corregedor dos Açores.
"As couzas que padecem os moradores desse afligido reyno, bastarão para vos desenganar que os que estão fora desse pezado jugo, quererião antes morrer livres, que em paz sujeitos. Nem eu darei aos moradores desta ilha outro conselho … porque um morrer bem é viver perpetuamente …"