terça-feira, 15 de abril de 2014

RUMEI A ROMA

O motivo; 30ª conferência da EUFASA, onde mulheres como eu desbobinam preocupações e realidades na esperança de que a nossa vida de "mulheres" itinerantes e polivalentes seja finalmente reconhecida. Às conclusões, regressaremos num próximo post.

Aeroporto Leonardo da Vinci
"Chef Express" era o ponto de encontro no aeroporto Fiumicino e o primeiro passo para o transfere de 40 minutos que me levaria rumo a Roma. "Dominguez" estava esparramado em letras gigante numa papeleta empunhada por um típico italiano. Alto, magro, moreno, de barba cerrada e.... antipático. 

- "Carla Dominguez?", disse ele, olhando para mim. Os latinos conhecem-se bem!
- "Yes", respondi eu.
- "Portoghese? allora parlare italiano!"
e num veloz chorrilho de palavras cantadas, explica-me como se processa "aquilo" do transfere. Com uma mímica desdenhada, percebo que tenho de me juntar a um grupo de outros empandeirados anteriormente e destinados à mesma sorte. Em pé, tentámos trocar umas palavras, desta feita em inglês, pois os meus futuros acompanhantes no transfere eram canadianos e escoceses. Aos 10 minutos iniciais de espera programados pelo italiano, juntaram-se mais 40 minutos! Itália sem máscara!

Finalmente, aproximou-se o nosso motorista, numa passada calma e descontraída. Com sinais  automatizados percebemos que teríamos de o seguir alguns metros até ao transfere estacionado no parque do aeroporto. Chegada à carrinha, lembrei-me (intuição talvez!) de perguntar: 

- "Pago-lhe directamente a si e você dá-me o recibo?"
- "Eu não tenho recibos."
- "Não tem recibos?! Mas eu necessito de um recibo agora! Como faço?"
- "É lá no escritório."

Olha com quem!!! Sem o saber, aquele italiano disparou o meu sensor de teimosia e voltando-me para os ocupantes pedi mil desculpas e lancei-me a correr de volta ao aeroporto para solicitar o recibo.  Percebi que era hora de almoço. Todos os funcionários daquele guichet empunhavam as suas sandochas e de boca cheia uma rapariga fez-me sinal de que eu poderia falar. Apresentei o caso e para meu espanto ela disse-me que o recibo era passado pelo motorista! Já sem paciência e sem vocação para pombo correio, coloquei a minha faceta menos nobre e aqui vai disto! Ela desatou aos gritos: "wait, wait!!". Eu nem queria acreditar!!! Uma miúda no meio do aeroporto aos gritos comigo!!!  Telefonando sabe Deus para quem, e percebendo que a conversação comigo seria no mínimo difícil, passou-me o telefone. Em tom contrariado a signora do outro lado da linha lá me pediu o email e prometeu enviar-me o recibo. Numa atitude de igualdade, atirei com o telefone para cima do balcão e virando costas lançei-me novamente numa corrida sprint, cheia de remorsos por ter feito esperar aquelas almas que só queriam férias italianas!! 

Chegada à carrinha, o motorista com a maior cara de pau e com um sorriso que só os italianos dominam, perguntou-me: 
-"Já tem o recibo?" 
Ai meu Deus!! Acho que nunca falei inglês tão depressa! 
- Elas disseram que você é que TEM de passar o recibo. Como quer que lhe pague se não me dá um papel?". Mesmo arfando, cada palavra levava veneno na ponta!

Sem comentar, o motorista fechou as portas com um estrondo tal, que os ocupantes tiveram medo!! E até eu!! A longa viagem decorreu num silêncio medonho mas sem incidentes e os passageiros foram sendo "depositados" nos seus destinos. Chegou a minha vez:
- "Dominguez, prossimo"
- "Certo", respondi eu com a pior cara que me conheço.

Já na rua da nossa maravilhosa residência, saindo da carrinha para me tirar a mala do porta bagagens, o sr motorista trazia na mão um papel!! 
- "Tenho aqui um recibo que serve, é da mesma empresa", e rabiscou o montante, meio  escondido dos restantes ocupantes. Não fossem eles pedir um também!!
- "Afinal!!!!!" respondi eu em bom português (moçambicano), e pegando na minha mala, dei-lhe os 25€ acordados.
"Paura" de não ser pago!!! Tuga um, italiano zero.

Já sozinha, respirei fundo e olhei em redor. Na Via de S. Valentino e numa pequena subida, um portão majestoso engalanado com as nossas insígnias e a bandeira mais linda do mundo! Já em solo português admirei aquele espaço soberbo, magnifico, sumptuoso que é a nossa embaixada junto do Vaticano. A simpatia dos funcionários é evidente contrastando com a grosseria de há poucos minutos atrás!! Os salões, as salas, os espaços dissimulados, os jardins, as flores, a escadaria, a imponência daquelas figuras, daqueles tectos, daqueles lustres, daquelas tapeçarias, daqueles quadros, de tudo..... um mundo de história secular. Uma pérola do nosso património. 

Olhando para o relógio percebi que tinha perdido a oportunidade de fazer o tour pela baixa de Roma com as delegadas da Eufasa! Tudo por culpa daqueles italianos!

Enfim, descomprimi e usufruí daquele fim de tarde, daquele espaço e da calmaria impensável no meio de Roma. O dia terminou com um jantar simpatiquissimo oferecido a mim e à Veronika (também delegada à Eufasa) pelo embaixador e embaixatriz de Portugal junto da Santa Sé.  
Embaixada de Portugal junto da Santa Sé


Jardim da Embaixada
Jardim da Embaixada
Jardim da Embaixada
Jardim da Embaixada
Segunda feira despertou solarenga. O "Palazzo della Farnesina" (MNE italiano) acolheu as 24 delegações numa conferência animada e descontraída, bem ao jeito italiano!

Palazzo della Farnesina
Delegação Portuguesa
Debatidas questões pertinentes, pudemos escutar testemunhos e desempenhos das nossas congéneres, assistir a workshops e fazer um mini tour pelas salas do Palácio descobrindo a cada recanto, arte. Bom, confesso que esperava uma arte diferente, pois parece que o Palácio está a ser povoado de peças valiosas... Sendo a arte subjectiva, fico-me por aqui!

Arte na Farnesina
Arte na Farnesina
Arte na Farnesina
Arte na Farnesina
Arte na Farnesina
No final do dia, esperava-nos o tradicional jantar de Gala, desta feita no Palácio da Villa Madama, desenhado por Raphael em 1518. Uma casa senhorial do Renascimento, localizada no declive do Monte Mário na margem esquerda do rio Tibre, que deve o seu nome de "Madama" a Margaret de Parma. Actualmente pertence ao MNE italiano. 

Palazzo Villa Madama
Palazzo Villa Madama
Outra peripécia se avizinhava: mesmo para quem já reside em Roma, o Monte Mário encerra alguns mistérios. Aceitando a boa vontade de um membro da embaixada, aproveitámos a boleia e rumámos ao Monte. A hora já ia avançada e a Villa Madama sem aparecer! Perdidos nos caminhos e já sem esperança de jantar, vimos numa curva o autocarro que trazia do hotel as restantes delegações. A imagem era pitoresca. "Entalado" numa ruela, o autocarro tinha o rodado traseiro no ar e o escape enfiado no alcatrão. Dificilmente sairia dali!! A rua não era aquela, o autocarro não andava mais e a Villa Madama não era ali. Vestidas de roupagens finas e saltos altos, as senhoras tremiam de frio ao relento à espera de uma solução. Caminhar monte dentro, estava fora de questão, taxi àquela hora, fora de questão estava e por isso a organização mobilizou algumas viaturas particulares para, em jeito de transbordo, levar as delegações até à Villa Madama. Quatro ou cinco pessoas em cada viatura e umas quantas viagens, solucionou o imprevisto.

Chegadas à Villa certa, à nossa espera estava um fantástico coro acompanhado de uma maravilhosa orquestra. 
Orquestra da Villa Madama
Tectos sublimes
Seguiu-se um bom jantar acompanhado pela já tradicional canção em verso feita pela delegada holandesa Maria, sempre acompanhada por um coro afinado.   

Coro da Eufasa
O segundo dia já cheirava a partida. Na última manhã de conferência foi apresentado por mim um testemunho sobre o tema "The new role of Contemporary Diplomatic Spouse". Compilando opiniões e experiências, foi interessante dar a conhecer às várias delegações a realidade portuguesa e os objectivos num futuro, que se quer próximo. 


Club Circolo del Ministero
Terminado o almoço de despedida no chiquíssimo Club Circolo del Ministero, rumei ao aeroporto sem mais percalços. Deixei uma Roma solarenga e amena e aterrei numa Lisboa chuvosa e fria. Quem diria!!

So long, farewell, auf Wiedersehen, good bye, até RIGA (Letónia)

CSD


Nota: Afinal sempre enviaram o recibo por email! Há falta de um....

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

ERICEIRA NO SEU MELHOR


Mar da Ericeira
O dia prometia. Dadas umas tréguas ainda que breves pelo nosso São Pedro e aproveitando a benção de São Valentim, rumámos à Ericeira. As imagens não deixam dúvidas. Terra arisca e só para corajosos, este mar mostrou a sua força, deixando-nos de boca aberta com algumas gracinhas. Num misto de acalmia e súbita revolta, as imensas câmaras foram disparando flashes. Famílias inteiras caminhavam naquele paredão, gozando os raios de sol há muito escondido e saboreando um vento gelado e carregado pelos salpicos das grandes vagas que açoitavam as pedras. 


Mar da Ericeira
A cada vaga, viam-se os Ipads ao alto, como que esperando a benção do mar para mais um disparo.  Esta nova moda de amadores e práticos, rivaliza com olhos pregados nas aberturas das câmara equipadas com lentes imensas, poderosas, caras, apoiadas em tripés, que obrigam a cálculos de luz, distância, amplitude e um sem fim de outros pormenores, que me transcendem. Eu pertenço à outra categoria: ver e disparar. 


O vento sempre presente

Vagas agrestes

Mais vagas 

E assim se passou uma tarde à beira mar, salpicados de maresia e inundados de iodo.  

CSD


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

NEVE EM LISBOA

Pela primeira vez na minha vida, o olhem que já levo uns anitos disto, vi nevar em Lisboa. 




Por ser uma raridade, foram uns minutos de puro encanto. Não está frio que o justifique. As temperaturas rondam os 9º, mas S. Pedro, brindou-nos com este manto branco, que para lisboetas, é um acontecimento raro. 


A noite deu o mote, pois por volta das 2 da manhã trovejou com tal intensidade que por momentos pensei estar novamente em África!! Depois, as pingas grossas começaram a bater à janela num tal frenesim, que nos assustou. 


Amanheceu anormalmente escuro, mas o céu carregado esconde a luminosidade desta Lisboa por mais tempo. Por volta das 8h, abruptamente começam a cair as pingas sonoras que de moles nada tinham. Saltitantes, bolinhas brancas acenavam à minha janela, estatelavam-se na minha varanda e encobriram um cenário colorido com puro branco. Apeteceu sair, tocar, ver com olhos de deslumbramento. 


Foram breves minutos, mas logo se ouviram as sirenes dos bombeiros, da polícia, da protecção civil. A marcha dos automóveis tornou-se lenta, cautelosa e as subidas e descidas traiçoeiras. A velocidade citadina não está habituada a esta cautela. 

Pararam as pedras, voltaram as pingas. Continua a trovejar e a relampejar. Alerta amarelo para Portugal. Ainda se vislumbram montinhos de neve nas bermas da estrada ou abrigos protegidos. Depressa se transformarão em pasta lamacenta e suja. É a parte feia que o manto belo esconde. 

Restam estas imagens que testemunham que num mês de Janeiro, NEVOU EM LISBOA.

CSD