BERN

Vista do céu, esta Suíça é uma imensa e irregular mancha verde povoada aqui e acolá por campos amarelos quase traçados a esquadria. Os rios aparecem como serpentes entre montes e serras, abraçando cada curva. As nuvens cinzentas e os 14ºc de temperatura exterior lembraram-me que apesar de ser Maio, as cidades deste lado da Europa são mais agrestes que o meu jardim à beira mar plantado. 

A primeira imagem que retenho desta Suíça é de uma organização sem igual, onde tudo tem a sua razão de existir, nada está lá por acaso e acima de tudo, é para cumprir. Percorrendo os corredores do aeroporto de Zurique, fui-me aproximando da segunda etapa da minha viagem solitária. Ainda com dúvidas sobre o preenchimento do bilhete de comboio generosamente ofertado pela organização suíça da Eufasa, dirigi-me a um dos balcões de atendimento. Cumprimentando-me sem sorriso, limitou-se a funcionária a dar-me a informação pretendida num inglês "suíçó alemão" e a despachar-me militarmente! O desabafo tuga, típico em qualquer balcão, não tem hipótese nesta suíça mecanizada.


A primeira classe daquela carruagem parecia estar-me reservada. O típico ruído quase inaudível dos actuais comboios era unicamente perturbado por duas senhoras idosas que refrescando-se com duas águas gasosas segredavam palavras impronunciáveis para alguém latino! A viagem de uma hora e quinze minutos com destino a Berna fez-se envolta num verde sem igual unicamente salpicado por habitações rurais. A paleta neutra entre brancos, cremes, beijes e castanhos dava o mote para as cidades que se iam sucedendo. Apesar dos pingos de chuva e das temperaturas mais frescas, foi frequente ver ao longo do percurso famílias aproveitando o que a natureza tem de melhor.   

Vista a partir do jardim Rosengarten
Berna, cidade medieval e Património Mundial da Humanidade da Unesco acolheu-me farrusca, mas os nossos embaixadores fizeram disso um pormenor. A amabilidade e o carinho com que me receberam foi exemplar e apesar de eu ter invadido o seu fim de semana, fizeram questão de me mostrar as atracções de Berna logo à chegada. 

Visitámos o jardim Rosengarten cujos mais de 200 tipos de rosas envergonhadas esperavam por uma primavera  tardia. Mais à frente, no Barengraben avistámos o fosso dos ursos (ex-libris da cidade) numa espécie de zoo, e aproveitando os tímidos raios de sol, tomámos uma cerveja no Altes Tramdepot ao som dos badalos das cabras pretas que, na pequena encosta, remoíam a erva fresca. A vista da Cidade Velha é privilegiada. O rio Aar seguia o seu curso, numa velocidade estonteante indiferente a tudo e a todos. Terminámos este momento de repouso da melhor maneira, ao som das badaladas da Catedral que marcavam as 19 horas.
Barengraben 
O domingo foi social, tal como previa o programa da 29ª Conferência da EUFASA. Após algumas reuniões matinais de acerto prévio, começaram a chegar as delegadas. O átrio do hotel Bellevue Palace foi pequeno para tanta delegação internacional. Algumas delegadas  contam já com largos anos de participação, outras como eu são debutantes e deslumbram-se com tamanha organização. 22 países reunidos, inúmeras experiências para partilhar. 

Largo Munstergasse (Catedral)
O passeio a pé foi dividido em dois grupos e iniciou-se fora da hora marcada. Se para um português é normal, para um suíço é impensável. Já com o relógio a trabalhar, seguimos em passo apressado atrás do guia para breves explicações sobre os monumentos principais e sua história. Pena não termos tido a possibilidade de entrar nas várias atracções por ser Domingo e estarem encerradas.

Largo do Palácio Federal
A praça do Parlamento (Palácio Federal) foi a primeira paragem. Embora as explicações do guia fossem muito interessantes, não pude deixar de observar um conjunto de pessoas que  se deliciavam nas fontes Bundesplatz, apesar do vento frio! Seguimos pela rua Marktgasse entrando assim na parte medieval da cidade. Engalanada com bandeiras dos cantões, esta rua alberga inúmeras arquearias comerciais do século XV. É a mais longa calçada comercial coberta da Europa.

Rua Gerechtigkeitsgasse (Rua da Justiça)
O relógio da cidade é todo ele encanto. Escondido na Torre de Zytglogge, construção do século XII, este relógio do tempo é uma das atracções principais da cidade de Berna. À hora marcada, é frequente verem-se grupos de turistas aguardando as movimentações das figuras deste relógio astronómico do século XVI.

Zytgloggeturn
A casa de Einstein apareceu como que por magia. Conta-se que o físico, apesar da sua origem alemã, desenvolveu a sua teoria da Relatividade nesta cidade de Berna. 

Casa de Einstein
Segui-se a Berner Munster. Magnífico exemplar de estilo gótico tardio do século XV, eleva o seu campanário a 100 metros de altura. Na sua porta principal está esculpida uma das mais belas esculturas de pedra que representam o Juízo Final. As 234 figuras estão esculpidas em pedra sabão num magnifico painel de cores e movimento.

Catedral de Berna
Escultura do Juízo Final
Seguindo a nossa viagem, a já esperada paragem nas caves para degustação de vinhos locais. Apesar de eu não ser apreciadora, gostei do interesse das estrangeiras na comparação com o "meu" vinho português! 

Caves
Para terminar o primeiro dia da Eufasa, a residência da Irlanda abriu as suas portas para um  jantar buffet. Segundo a tradição, cabe ao país com a presidência europeia a organização da Eufasa. Por falta de meios a Irlanda declinou a organização tendo a Suíça arregaçado as mangas, garantindo a continuidade desta conferência.

E chegou segunda feira, o primeiro dia de trabalho. Numa das salas do famoso KulturCasino reuniram-se as delegações e a Conferência iniciou-se.  

Kultur Casino
Delegação Portuguesa
Portugal, como já habitual, apresentou o seu trabalho e as suas ideias pela nossa delegada já veterana nestas andanças. Os grandes temas que preocupam a nossa delegação são o emprego e os fundos de pensões, pelos quais nos bateremos sempre.  


Outras delegações se seguiram numa muito interessante apresentação de ideias e conclusões. A diversidade de temas é vasta e engloba não só as mulheres, como os filhos e as famílias. A vida diplomática também tem os seus espinhos!

Para terminar este primeiro dia de trabalho, foram as várias delegações convidadas para um jantar semi formal, no Bellevue Palace com direito a espectáculo. A longa Trompa Alpina fabricada com madeira de Abeto, foi magistralmente tocada por dois pastores tiroleses, que unicamente com o vibrar dos seus lábios, produziram um som único.  

Buchel
Delegação Portuguesa e organização
Segui-se a segunda parte da Conferência, na manhã de terça feira. Mais apreciações, mais discussão e por fim a aprovação dos novos pontos para a próxima conferência que terá lugar em Roma 2014. Despedimo-nos após um excelente almoço, com a habitual troca de cartões e votos de estreita cooperação de modo a dignificarmos ainda mais a carreira diplomática e o papel das "spouses". 

Ficam ainda para a posteridade algumas imagens que consegui retratar de uma Berna muito calma, muito ordeira e muito limpa. 





CSD

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