domingo, 22 de setembro de 2013

Caiu o Carmo e a Trindade!


De facto a ideia até era muito boa. Levantámo-nos cedo e se bem o pensámos, melhor o fizemos. Numa manhã de sábado que prometia temperaturas altas, porque não explorar um local húmido e fresco, badalado em grandes parangonas e aberto só 3 dias no ano? As Galerias Romanas de Lisboa.







Galerias Romanas
Pois, mas o nosso pensamento foi seguramente o mesmo que o de 1 milhão de alfacinhas! Todos os caminhos da capital desembocavam na Rua da Conceição, mais propriamente num buraco mesmo no centro do alcatrão.  Sim, de facto a entrada do buraco era na rua da Conceição, mas a fila, que mais parecia um cordão humanitário, terminava no Rossio! Se na sexta feira havia relatos de espera de 5 horas, naquele sábado, a avaliar pela multidão, nem 8 horas seriam suficientes para se penetrar no buraco! 

Rua da Prata??? Não, é mesmo na Rua da Conceição.
Rodámos os calcanhares e iniciámos o regresso a casa. Mas Lisboa tem de facto imenso para ver, e nós, ainda com o natural atraso de seremos emigrantes, temos lacunas de conhecimento. Para não dar a viajem como perdida, resolvemos mostrar ao rebento, o Elevador de Santa Justa.

Elevador de Santa Justa
Após alguns minutos de espera numa filinha medíocre, entrámos na caixa de madeira ornamentada a latão. Também conhecida como Elevador do Carmo foi inaugurado em 1902. Erradamente atribui-se a sua criação a Eiffel, por causa da Torre lá, em Paris de França, mas na verdade o arquitecto deste ascensor foi outro: Ponsard. Com uma lotação máxima de 25 pessoas na subida e 15 na descida, iniciámos a viajem. 30 metros de altura separavam a Rua de Santa Justa da Rua do Carmo. Após alguns degraus em escada de caracol, eis que se abre o céu e a minha cidade. O Rossio e o seu D. Pedro IV, a esquadria da Baixa, o Castelo de São Jorge, o Convento do Carmo (ou o que dele resta) e finalmente, num abraço envolvente e refrescante, o Tejo. 
Como é bela a minha Lisboa!

Praça D. Pedro IV - Rossio
Rua Augusta
Castelo de São Jorge
Convento do Carmo
Com as Ruínas do Carmo mesmo ali ao lado, eis que aproveitámos para mais uma descoberta. Fundada em 1389 pelo Santo Condestável D. Nuno Álvares Pereira, esta actual amostra de monumento foi em tempos um convento e uma igreja gótica do mais imponente que havia. Mas o Terramoto de 1755 foi impiedoso e para a posteridade ficaram de pé os pilares e os arcos das naves. No reinado de Dona Maria I procedeu-se à recuperação, já sob o estilo neogótico, mas os trabalhos foram interrompidos com a extinção das ordens religiosas. Hoje, é local obrigatório de visita tanto para turistas como para nacionais.     

Ruínas do Convento
O museu arqueológico foi fundado em 1863 pelo arquitecto da Casa Real Joaquim Possidónio da Silva. Inicialmente destinou-se a albergar peças do próprio templo descobertas entre os escombros, peças de antigos edifícios e peças das casas reais mais tarde extintas. Situado hoje sob o tecto que não ruiu, podemos ver achados do tempo paleolítico e neolítico, bem como túmulos de figuras ilustres da nossa história. 

Túmulo de ......
A parte habitável, outrora Convento, é hoje a sede da GNR e foi palco dos grandes acontecimentos do 25 de Abril e Revolução dos Cravos. À saída do Museu encontramos o Chafariz do Carmo, datado do Século XVIII que, com as suas torneiras em ferro, refrescaram a nossa manhã. 

Chafariz do Carmo
Voltámos a descer no elevador centenário e rumámos até à viatura, não sem antes comermos um gelado na Farggi e voltarmos a comprovar a imensa fila dos amantes das catacumbas!

Talvez por isso faça sentido a expressão "caiu o Carmo e a Trindade", desta vez na Rua da Conceição!!! 

CSD

sexta-feira, 17 de maio de 2013

BERN

Vista do céu, esta Suíça é uma imensa e irregular mancha verde povoada aqui e acolá por campos amarelos quase traçados a esquadria. Os rios aparecem como serpentes entre montes e serras, abraçando cada curva. As nuvens cinzentas e os 14ºc de temperatura exterior lembraram-me que apesar de ser Maio, as cidades deste lado da Europa são mais agrestes que o meu jardim à beira mar plantado. 

A primeira imagem que retenho desta Suíça é de uma organização sem igual, onde tudo tem a sua razão de existir, nada está lá por acaso e acima de tudo, é para cumprir. Percorrendo os corredores do aeroporto de Zurique, fui-me aproximando da segunda etapa da minha viagem solitária. Ainda com dúvidas sobre o preenchimento do bilhete de comboio generosamente ofertado pela organização suíça da Eufasa, dirigi-me a um dos balcões de atendimento. Cumprimentando-me sem sorriso, limitou-se a funcionária a dar-me a informação pretendida num inglês "suíçó alemão" e a despachar-me militarmente! O desabafo tuga, típico em qualquer balcão, não tem hipótese nesta suíça mecanizada.


A primeira classe daquela carruagem parecia estar-me reservada. O típico ruído quase inaudível dos actuais comboios era unicamente perturbado por duas senhoras idosas que refrescando-se com duas águas gasosas segredavam palavras impronunciáveis para alguém latino! A viagem de uma hora e quinze minutos com destino a Berna fez-se envolta num verde sem igual unicamente salpicado por habitações rurais. A paleta neutra entre brancos, cremes, beijes e castanhos dava o mote para as cidades que se iam sucedendo. Apesar dos pingos de chuva e das temperaturas mais frescas, foi frequente ver ao longo do percurso famílias aproveitando o que a natureza tem de melhor.   

Vista a partir do jardim Rosengarten
Berna, cidade medieval e Património Mundial da Humanidade da Unesco acolheu-me farrusca, mas os nossos embaixadores fizeram disso um pormenor. A amabilidade e o carinho com que me receberam foi exemplar e apesar de eu ter invadido o seu fim de semana, fizeram questão de me mostrar as atracções de Berna logo à chegada. 

Visitámos o jardim Rosengarten cujos mais de 200 tipos de rosas envergonhadas esperavam por uma primavera  tardia. Mais à frente, no Barengraben avistámos o fosso dos ursos (ex-libris da cidade) numa espécie de zoo, e aproveitando os tímidos raios de sol, tomámos uma cerveja no Altes Tramdepot ao som dos badalos das cabras pretas que, na pequena encosta, remoíam a erva fresca. A vista da Cidade Velha é privilegiada. O rio Aar seguia o seu curso, numa velocidade estonteante indiferente a tudo e a todos. Terminámos este momento de repouso da melhor maneira, ao som das badaladas da Catedral que marcavam as 19 horas.
Barengraben 
O domingo foi social, tal como previa o programa da 29ª Conferência da EUFASA. Após algumas reuniões matinais de acerto prévio, começaram a chegar as delegadas. O átrio do hotel Bellevue Palace foi pequeno para tanta delegação internacional. Algumas delegadas  contam já com largos anos de participação, outras como eu são debutantes e deslumbram-se com tamanha organização. 22 países reunidos, inúmeras experiências para partilhar. 

Largo Munstergasse (Catedral)
O passeio a pé foi dividido em dois grupos e iniciou-se fora da hora marcada. Se para um português é normal, para um suíço é impensável. Já com o relógio a trabalhar, seguimos em passo apressado atrás do guia para breves explicações sobre os monumentos principais e sua história. Pena não termos tido a possibilidade de entrar nas várias atracções por ser Domingo e estarem encerradas.

Largo do Palácio Federal
A praça do Parlamento (Palácio Federal) foi a primeira paragem. Embora as explicações do guia fossem muito interessantes, não pude deixar de observar um conjunto de pessoas que  se deliciavam nas fontes Bundesplatz, apesar do vento frio! Seguimos pela rua Marktgasse entrando assim na parte medieval da cidade. Engalanada com bandeiras dos cantões, esta rua alberga inúmeras arquearias comerciais do século XV. É a mais longa calçada comercial coberta da Europa.

Rua Gerechtigkeitsgasse (Rua da Justiça)
O relógio da cidade é todo ele encanto. Escondido na Torre de Zytglogge, construção do século XII, este relógio do tempo é uma das atracções principais da cidade de Berna. À hora marcada, é frequente verem-se grupos de turistas aguardando as movimentações das figuras deste relógio astronómico do século XVI.

Zytgloggeturn
A casa de Einstein apareceu como que por magia. Conta-se que o físico, apesar da sua origem alemã, desenvolveu a sua teoria da Relatividade nesta cidade de Berna. 

Casa de Einstein
Segui-se a Berner Munster. Magnífico exemplar de estilo gótico tardio do século XV, eleva o seu campanário a 100 metros de altura. Na sua porta principal está esculpida uma das mais belas esculturas de pedra que representam o Juízo Final. As 234 figuras estão esculpidas em pedra sabão num magnifico painel de cores e movimento.

Catedral de Berna
Escultura do Juízo Final
Seguindo a nossa viagem, a já esperada paragem nas caves para degustação de vinhos locais. Apesar de eu não ser apreciadora, gostei do interesse das estrangeiras na comparação com o "meu" vinho português! 

Caves
Para terminar o primeiro dia da Eufasa, a residência da Irlanda abriu as suas portas para um  jantar buffet. Segundo a tradição, cabe ao país com a presidência europeia a organização da Eufasa. Por falta de meios a Irlanda declinou a organização tendo a Suíça arregaçado as mangas, garantindo a continuidade desta conferência.

E chegou segunda feira, o primeiro dia de trabalho. Numa das salas do famoso KulturCasino reuniram-se as delegações e a Conferência iniciou-se.  

Kultur Casino
Delegação Portuguesa
Portugal, como já habitual, apresentou o seu trabalho e as suas ideias pela nossa delegada já veterana nestas andanças. Os grandes temas que preocupam a nossa delegação são o emprego e os fundos de pensões, pelos quais nos bateremos sempre.  


Outras delegações se seguiram numa muito interessante apresentação de ideias e conclusões. A diversidade de temas é vasta e engloba não só as mulheres, como os filhos e as famílias. A vida diplomática também tem os seus espinhos!

Para terminar este primeiro dia de trabalho, foram as várias delegações convidadas para um jantar semi formal, no Bellevue Palace com direito a espectáculo. A longa Trompa Alpina fabricada com madeira de Abeto, foi magistralmente tocada por dois pastores tiroleses, que unicamente com o vibrar dos seus lábios, produziram um som único.  

Buchel
Delegação Portuguesa e organização
Segui-se a segunda parte da Conferência, na manhã de terça feira. Mais apreciações, mais discussão e por fim a aprovação dos novos pontos para a próxima conferência que terá lugar em Roma 2014. Despedimo-nos após um excelente almoço, com a habitual troca de cartões e votos de estreita cooperação de modo a dignificarmos ainda mais a carreira diplomática e o papel das "spouses". 

Ficam ainda para a posteridade algumas imagens que consegui retratar de uma Berna muito calma, muito ordeira e muito limpa. 





CSD

quarta-feira, 3 de abril de 2013

O CONTEMPORÂNEO NO SÉCULO XIX



Palácio da Ajuda em Lisboa
 O Palácio da Ajuda, última residência oficial do Rei D. Carlos e da Rainha D. Maria Pia, abriu as suas portas para mais uma descoberta. Reunidas as convidadas da Associação das Famílias dos Diplomatas Portugueses, foi o ambiente do século XIX invadido para descoberta do contemporâneo.

As 38 peças da exposição da artista Joana de Vasconcelos foram dispostas ao longo das salas do Palácio numa tentativa de fundir o moderno na historia nacional. Acompanhadas pela nossa anfitriã Dra. Isabel Silveira Godinho, directora do Palácio Nacional da Ajuda, fomos a cada passo, descobrindo as peças vanguardistas. Para surpresa de todos, fomos brindados com a presença da artista, que no seu habitual estilo informal nos acompanhou durante alguns momentos, explicando cada pormenor e seu motivo. 

"Destinos Cruzados", inspirada na Guitarra Portuguesa
Cada sala, cada despertar. Cada modelo, cada olhar curioso. Das várias e distintas peças expostas ao longo das salas do Palácio, fixaram-se os nossos olhos nos 11 animais, alguns do bestiário de Bordallo Pinheiro, vestidos de crochet. A "Vespa Gigante" deu o exemplo mostrando-se no quarto de D. Maria Pia, vestida com o seu açoriano crochet azul. A "Tapeçaria Vitrail" abriu as suas cores no quarto do Rei. As duas peças de "A Todo o Vapor", junção de 78 ferros de engomar, apresentaram-se no jardim interior envoltas numa nuvem de vapor. No vestíbulo, entendeu a criadora desta arte expor o carro "War Games", que com as suas espingardas coladas e luzes futuristas, rivalizavam com o coche real obrigando-nos a pensar na evolução dos tempos.     

"Tapeçaria Vitrail"
"A Todo o Vapor"
"Vespa Gigante"
Os sons da surpresa ouviam-se a cada transposição de sala e as grandes peças apresentavam-se-nos sem idade. O par de "Sapatos de Marilyn" curiosa junção de tachos e tampas, brilhavam na sala do Trono. 

" Os Sapatos de Marilyn" 
"Coração Independente Vermelho"
Seguiu-se o "Coração Independente Vermelho", suspenso na Sala de D. João VI. A "Noiva", obra censurada e proibida em Versalhes, pendia do tecto da sala de D. João IV. Mais à frente, na sala dos Embaixadores, o majestoso "Lilicopter", peça concebida para o Palácio de Maria Antonieta em Versalhes, apresentava-se numa explosão rosa de plumas. E finalmente, suspenso na antiga capela do Palácio, a megalómana "Valquiria Royal", peça de tecido que conjuga várias técnicas e cores numa forma muito própria.    

"A Noiva"
"Lilicopter"
"Valquiria Royal"
Uma coisa é certa, esta exposição vai bater recordes e cada visitante fará seguramente a sua análise sobre esta forma criativa. Seja qual for a opinião, ficar indiferente é impossível. 

Aguardemos pois a próxima excentricidade da artista na preparação do nosso Cacilheiro que uma vez mais levará o nome de Portugal além mar, desta feita até à Bienal de Veneza.

CSD

segunda-feira, 25 de março de 2013

O BAÚ DAS RECORDAÇÕES

Novo workshop

As saudades fizeram-se sentir. O vício começou a dar mostras da sua força e movida pela curiosidade, fui neste domingo aprender mais alguns segredos da pasta de açúcar.

O desafio era grande: pintura vitral em pasta de açúcar. É coisa nova, e daí o grande risco de falhanço total. Mas sem tentar nada se consegue e às 9h lá comecei a desbravar os caminhos do manuseamento do saco de pasteleiro e da pintura. Manusear sacos só mesmo os do supermercado e a pintura, com canetas de feltro e pouco mais. Foram 8 horas de aprendizagem onde a decepção foi gradualmente dando lugar à obra conseguida.

Glacê real foi a primeira explicação. Porções, truques, pontos, e respectivos bicos. Quem pensar que é fácil desengane-se, pois a mão no momento da verdade treme e a perfeição fica bem longe do pretendido. O cérebro, que tudo comanda, acanha-se na altura precisa e a mão ganha vontade própria. Muito treino é a solução e respirar é importante!!

Depois seguiu-se a montagem da estrutura. Qual arquitecto, fomos edificando as fundações e  preparando os pilares de sustentação do que seria o nosso "cofre dos segredos" ou "baú das recordações".

As fundações de esferovite foram cobertas com pasta branca. Com calma e perícia conseguiu-se cobrir tudo de uma só vez mantendo longe os rasgões. Depois, fomos marcando os veios da madeira, definindo os nós e as primeiras pinceladas fizeram o resto. A brincadeira com as cores deu à madeira um toque mais real. 


Depois da cobertura do bolo, fizemos a marca da tampa com uma régua e passámos ao decalque das imagens pretendidas. Por cima da imagem escolhida foi colocado o papel vegetal. Com a mestria possível fomos passando o decalque com o glacê branco fluído. Depois, colocámos o papel vegetal na parte pretendida da caixa e com uma leve pressão, decalcámos o desenho. Confesso que o primeiro decalque ficou muito abstracto, mas teve o dom de me activar a criatividade.  

Seguiu-se a preparação das paletas das cores com os corantes em gel. O objectivo era uma pintura suave, com relevos e profundidades. Dito assim até parece fácil mas a realidade revelou-se diferente. De pincel na mão, foram as primeiras pinceladas dadas a medo. Mas a confiança foi crescendo e caixa começou a ter cor. Brincando com o pincel, fomos representando o vitral. Os jogos de cores suaves e escuras começaram a fazer sentido.  


Depois passámos à pintura das imagens decalcadas. As rosas foram-se enchendo de cor e as folhas de harmonia. Mais ou menos abstracto, foram as artistas dando largas à sua imaginação e criação. O decalque da tampa foi, depois de contornado com glacê preto, cheio com glaçê branco fluído. O relevo estava feito, havia que deixar secar. Os decalques laterais ganhavam vida unicamente com as cores. 


As linhas de glacê preto foram o grande desafio. Com os nervos a comandarem e a intuição à flor da pele, foram saindo as linhas trémulas do bico de pasteleiro. A gravidade tornou-se grande inimiga quando se trabalha na vertical. 


A borboleta em pastilhagem também nasceu, permitindo-nos ensaiar numa peça mais pequena.

Já no final, dedicámo-nos aos pormenores dos pés e pintura com spray, utilizando os moldes existentes. Tudo colado e eis que surge a nossa obra. 





Para primeira vez, não está mal!
São estes desafios que me estimulam e contribuem para o equilíbrio emocional. 


Mais um passo na realização pessoal e no sonho de ser artista. 


CSD