domingo, 8 de maio de 2011

A ILHA DO IBO

Cabo Delgado, uma das onze províncias deste imenso Moçambique, tem no seu lado norte e ao longo de aproximadamente 200 quilómetros de costa, o Arquipélago das Quirimbas. Uma das suas 32 ilhas é a Ilha do Ibo, que se destaca pela sua importância histórica e estratégica. Merecia por isso uma visita por parte destes curiosos portugueses. 

Vista aérea
De Pemba à Ilha do Ibo são 25 minutos voando numa daquelas folhas de papel metálicas de quatro lugares e um motor. Após saída atribulada do Pemba Beach Hotel por manifesta incompetência do pessoal, chegámos ao aeroporto de Pemba às 8h30, sem o nosso mata bicho e muito revoltados com a incompetência. Sentados num banco de pedra face à pista, fomos mordiscando bolachas e fruta que ainda existiam na nossa mochila. A aeronave estava atrasada, o que fez aumentar ainda mais a nossa revolta. Finalmente o motor do nosso futuro avião fez-se ouvir e imobilizou-se na pista. O sinal de embarque foi dado. 

Cessna de 4 lugares
O céu mostrava-se escuro lá para os lados do nosso destino. Com as primeiras pingas a fazerem-se sentir, entrámos no Cessna. Após as recomendações da praxe, iniciámos a viagem a baixa altitude com tremedeiras constantes e nuvens negras a abraçar-nos. Decorridos 15 minutos de viagem, a asa direita da folha metálica inclina-se. Estava iniciada a manobra de regresso a Pemba, pois as condições atmosféricas mais adversas intimidaram piloto e avioneta. Desembarcados em Pemba, aguardámos directivas que não existiram. Regressámos ao Pemba Beach hotel e após conversa queixosa com o director, foi-nos servido o nosso mata bicho faltoso. Eram 11 horas e 30 minutos. É uma pena um espaço tão bonito ter um serviço com tanta falta de qualidade e eficiência.

Pemba Beach Hotel
Pemba Beach hotel
Pemba Beach Hotel
O mata bicho em forma de brunch estava terminado e as indicações de possibilidade de voo chegaram aos nossos ouvidos. Novo transfere para o aeroporto, nova entrada na aeronave e nova partida para a Ilha do Ibo. A viagem aérea foi camuflada pelas nuvens negras que pairavam no céu. As raras tréguas permitiam-nos ver que o mar estava perto e os recortes da terra eram bem definidos. A chuva caía lá fora e pingava também dentro da nossa aeronave. A prece, foi minha companheira constante.  

O embate das três rodas no solo foi suave e fofo. A pista em jeito de tapete de relva estava verdejante e molhada, o que me fez pensar numa aterragem falhada. Mas não. Chovia abundantemente. À nossa espera o jipe de safari-transfere. Para dias como aquele, foi o banho certo e indesejado!  

"Aeroporto" da Ilha do Ibo
A chegada ao Ibo Island Lodge foi molhada. À nossa espera, estava a anfitriã com a sua palestra de boas vindas e apresentações, que dadas as circunstâncias, se tornaram inoportunas. O logde em si é um espaço bonito, florido, agradável, bem preservado, bem mobilado embora num estilo pouco português. Composto por vários edifícios, a antiga casa do governador foi e continua a ser, uma bela residência portuguesa.
Ibo Island Logde
Ibo Island Lodge
Ibo Island Lodge
Já instalados no quarto de nome Kixewa (peixe), e aproveitando as tréguas meteorológicas, fomos conhecer a ilha num delicioso passeio a pé. Com o guia Ali seguimos estrada fora visitando cada ponto importante da ilha bem como os "nossos" locais; aqueles que têm ainda o nosso cunho e a nossa alma. 

Trilho de descoberta
A Ilha do Ibo não é grande mas já o foi em tempos idos. Organizada, foi votada ao abandono aquando da época da independência. O comércio, sua marca empreendedora, deixou de se fazer e o povo foi forçado a partir. Desde aí, a degradação tomou conta do espaço e a pobreza criou raízes.

Casas dos locais da Ilha do Ibo
A estrada de terra vermelha conduziu-nos à Fortaleza de S. João Batista, edificada em forma de estrela, ocupada pela PIDE durante aquele período complicado da nossa história e transformada em prisão. No largo central, uma amendoeira gigante faz rivalizar a sua sombra com as sombras das almas que sofreram. Nas palavras do nosso guia entoando a frase conhecida "entra vivo e saí morto", sentiu-se a amargura desses tempos. 

Fortaleza de São João Batista
Fortaleza São João Batista
Dentro, oficinas de artesanato Makonde, ateliers de costura e oficinas de prata, ocupam hoje as salas que outrora escutavam torturas e repressões. Noutra dessas salas, um arquivo completamente abandalhado encerra documentos secretos portugueses que contam a nossa história e cuja importância mundial parece não interessar a ninguém. Vai-se degradando a cada chuvada, a cada intempérie até um dia ser fogueira. Dói muito ver a nossa história ser tratada assim.
Sala do arquivo histórico, votado ao abandono.
Continuando o nosso périplo, passámos a "Casa das Conchas", antiga casa do advogado Eduardo Pereira datada de 1950, caminhámos pelos trilhos mal amanhados e passámos pelas casas com cunho português, que albergam hoje os pobres da ilha. 

Antigas casas dos colonos
Casa colonial constrastando com casas do povo
As crianças são muitas, as cabras também. O forte de Santo António outrora monumento emblemático, alberga agora gado ovino e caprino e pinta-se com os seus dejectos. A pocilga é tal, que quase não se pode aceder ao espaço. Foi o curral mais histórico que conheci!

Forte de Santo António
O sorriso de felicidade
A pureza de ser criança
Mais uns metros percorridos e entrámos na Rua 27. Aqui era a estrada da separação. De um lado as gentes colonas, nobres, com estatuto. Do outro lado da rua as gentes locais, pobres, trabalhadores, serviçais. Hoje os serviçais expandiram-se e os senhores extinguiram-se. A Rua 27, se outrora teve alguns laivos de elegância, estão hoje completamente aniquilados.  

Rua 27
Seguindo o nosso guia, tomámos conhecimento de algumas curiosidades. Nesta pequena ilha existem 139 poços de água fresca, 10 mesquitas e 1 igreja católica.

Igreja Católica, única em toda a Ilha
A Fábrica de Sabão, outrora grande industria de importação e exportação, está igualmente decadente.   

Outro forte se nos apresenta. O forte de São José, construído em 1760, prisão daqueles cujas ideias eram diferentes das do regime. Este pelo menos está a ser alvo de recuperação.

Forte de São José
A marginal é ampla e recortada. O mar é calmo como todas as águas que vivem em baias. A baía do Ibo não foge à regra fazendo daquelas águas apetecíveis, embora a praia não seja convidativa. Nela abundam os barcos dos pescadores e as cabras, que se passeiam pelas águas refrescando os seus cascos. 

Vista do terraço do Ibo Island Lodge (maré baixa)
Caprinos na maré baixa
Praia pouca apelativa
Já ao entardecer recolhemos aos nossos aposentos para um descanso merecido. O por do sol foi uma vez mais fantástico e reconfortante.

Por do sol em Ibo
O jantar teve lugar no terraço com vista de mar e a ementa foi inovadora: entrada de creme de abóbora com molho tártaro, sopa fria de pepino, cubo de gelatina de limão e gengibre, lagostim com arroz de algas e tarte de maçã quente com molho de natas. "Haute Cuisine" com os cumprimentos do Chef. 

O céu, carregado de estrelas cintilantes, numa pintura nunca outrora vista, foi o culminar de um dia de história e com história. 

CSD  

1 comentário:

  1. Mais uma viagem inesquecível para sempre recordarem.
    Abraços

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