sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

BOAS FESTAS

Doces no Natal e sonhos em 2012
Natal 2010 em Maputo
Termina em Lisboa mas começou em Cape Town.
Deu-nos praias em Janeiro e chuvadas o ano inteiro.
Vimos o progresso e a pobreza sentados à mesma mesa.
Sentimos a vida com uma nova beleza.
E até na TV aparecemos de surpresa!
Foi assim este 2011, em grandeza.


De regresso a casa fazemos votos para que este novo ano o seja verdadeiramente em crescimento interior e aprendizagem colectiva.

Feliz Natal e bom 2012.

Família Domingues
Paulo, Carla Sofia e Afonso 


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

27º BAZAR DO CORPO DIPLOMÁTICO

A imagem já não é nova. "As caixas da Solidariedade", post contado em Maputo, ainda estará seguramente presente na memória dos que me seguem. A imagem de centenas de caixas a abarrotar de bens solidários dados com amor, é algo que se retém. Aquelas foram oferecidas de livre vontade, recebidas de braços abertos, embaladas o melhor possível e carregadas com satisfação num camião em Portugal. Transportadas Atlântico fora chegaram a Moçambique e descarregadas, separadas, armazenadas foram finalmente oferecidas a quem mais necessitava. É sempre Natal quando chega um contentor luso.

Aqui, a solidariedade tem mais pressão. As caixas fotografadas foram dadas é certo, mas não sem um prévio esforço, muitos contactos, muita insistência, muito apelo, muito conhecimento. Aqui há um destinatário pré definido, é necessário estar frio, é forçoso lembrar que é Natal.

A marcação das ofertas e o embalamento
A chegada das caixas à Associação
Mas conseguiu-se. Nos últimos dias o nosso espaço foi recebendo de braços abertos aquilo que as empresas acharam por bem oferecer. Seguiu-se a fase de descoberta do produto e marcação de valores. E muitas foram as coisas boas oferecidas. O leque variado permitiu-nos expor no Centro de Congressos de Lisboa produto nacional. A porcelana, a louça, os vinhos, os azeites, os frutos secos, os atoalhados, os tapetes, os livros, os relógios, as flores, a bijuteria, os cabazes, os sabonetes, as velas e um sem número de outros produtos fizeram as delícias de quem visitou este 27º Bazar Internacional.

Mas receber não chega! Há que definir o local do Bazar, transportar a mercadoria, organizar espaços e definir stands, embelezar mesas, expor o material.


A organização e definição dos espaços no Centro de Congressos
A chegada das caixas
A exposição das ofertas
Coisas lindas e bem cheirosas
Porcelana e louças
Vinhos, azeites e frutos secos.
Está quase!
Tudo nacional!
Este ano e à semelhança de anos anteriores, a consignação marcou presença. Apresenta-se um produto nacional de excelente qualidade e a um preço imbatível. Embora o valor apurado não reverta totalmente para a Associação do Bazar do Corpo Diplomático, permite-nos mostrar o que de bom se faz em Portugal, apresentar coisas diferentes e satisfazer as bolsas mais exigentes. 

Cortiça, tecelagem e filigrana

Tudo isto dá trabalho e há toda uma organização por detrás deste Bazar que o povo desconhece. A divulgação do evento e respectiva publicidade nos vários meios de comunicação, o assegurar das hospedeiras e bengaleiro, a emissão de entradas e rifas, a distribuição de credenciais, o envio de convites a ilustres merecedores, a preparação da restauração e gourmet, a disponibilização gratuita de águas e cafés, a organização dos prémios a sortear na tômbola, o assegurar de assistência médica e policial, o contacto com as embaixadas e um sem número de outros pormenores. Tudo isto só se consegue com boa vontade, empenho e muita experiência. 
As senhoras do stand de Portugal
E ninguém melhor que as voluntárias do Corpo Diplomático para garantir o sucesso de mais um Bazar e a ajuda às instituições que apoiam a pessoa com deficiência, o tema de 2011.

Obrigada a todas e até para o ano!

CSD






quinta-feira, 24 de novembro de 2011

€UROZINHOS MUITO SOLIDÁRIOS!!

Neste meu regresso a casa encontrei um país diferente. Aquele que deixei há seis anos acolheu-me nuns braços mortiços e apáticos. Foram várias as vozes que me prepararam para uma recepção cinzenta. Felizmente a minha consciência foi-se escudando surdamente. O choque foi suave e anestesiado.

Encontrei um cantinho pobre, desanimado, desiludo e desinteressado. Decidi por isso entregar-me à solidariedade. Ponderei interesses e disponibilidades. Enviei mails, ofereci os meus préstimos, disponibilizei-me a disponibilizar tempo meu em prol dos outros.  E sabem que mais:

 NINGUÉM ME QUIZ.

À excepção do Bazar Diplomático, onde me entrego em manhãs seguidas à causa nobre dos mais desfavorecidos, nenhuma outra entidade solicitou ou respondeu à minha oferta de ajuda. Os meus interesses sempre foram variados. Desde associações de protecção animal, canis municipais ou até o próprio banco alimentar, todas estavam dentro do meu espirito solidário. Para todas enviei a oferta dos meus préstimos, mas nenhuma respondeu. 

Fazendo uma análise triste deste estado de coisas só uma conclusão posso tirar. Esta crise tão apregoada, este empobrecimento tão queixoso, esta solidariedade tão necessitada não quer coração, não quer braços, não quer tempo, não quer mimos. 

QUER DINHEIRO. 

A minha mão de obra não chega. A oferta do meu tempo não satisfaz. A minha presença não é querida, mas os meus EUROS sim. Seguramente que, se ao invés de ter oferecido tempo e ajuda fisica tivesse oferecido dinheiro, não faltariam as respostas e as mãos estendidas. Esta sociedade continua a cair no mesmo erro. Dá importância desmedida à moeda de troca, que troca valores por ganância. 

CSD
  


segunda-feira, 7 de novembro de 2011

BAZAR INTERNACIONAL DO CORPO DIPLOMÁTICO 2011

S O L I D A R I E D A D E

Anda na boca do povo. Pede-se, chora-se, precisa-se. Mas afinal, o que é a solidariedade?


É olhar em redor, 
É ajudar sem perguntar,
É ouvir sem falar, 
É apoiar sem receber. 

É despender o nosso tempo, 
É agir em prol de alguém, 
É auxiliar quem necessita.

É simplesmente, SER-SE HUMANO.



Este ano, visite o Bazar Internacional Do Corpo Diplomático, dias 2 e 3 de Dezembro no Centro de Congressos de Lisboa. Das 11 às 19 horas estaremos lá para o receber e guiar nas suas compras de Natal. Visite o Stand de Portugal e passeie pelas Embaixadas Internacionais acreditadas no nosso país. 

Compre bem, compre diferente.


Ao fazer as suas compras de Natal no 27º Bazar Internacional Do Corpo Diplomático, saiba que está a contribuir para Instituições de Apoio a Pessoas Portadoras de Deficiência

Seja humano. SEJA SOLIDÁRIO.

CSD



quinta-feira, 20 de outubro de 2011

UMA CIDADÃ ATENTA

A crise está aí, e veio para ficar. Sente-se, cheira-se, prova-se, teme-se. 

As famílias andam tortas nestes tempos conturbados. São as voltas da poupança que enrolam as mentes desesperadas. O dinheiro, esse pecado sem moral, está cada vez mais caro e raro. Esticar não estica, crescer não cresce. As notas outrora despachadas sem apego, permanecem hoje mais tempo nas mão de quem as tem. E custa muito vê-las partir! Contadinho anda ele. 
Tem de chegar, tem de dar, tem de ser.

O pequeno almoço outrora reservado no café conhecido é agora dentro de portas. O almoço vai na lancheira em jeito de marmita e quer-se leve, escondido na palavra "saudável". O lanche são as bolachinhas daquela marca mais branca que lixivia e o jantar, esse, são os restos dos dias em que a fartura andou por ali. 
Tem de render, tem de dar, tem de ser.

A moda, essa deixou de ter seguidores. A roupinha veste-se sem preconceitos. Tudo o que esteve guardado e até quase dado, é aproveitado. Conjugam-se feitios, cores, acessórios e o diferente passou a ser moda. Os pés reclamam glamour, mas é comodidade que se lhes oferece. Solas, meias, capas e mais um ano a andar. 
Tem de se estafar, tem de dar, tem de ser. 

A alimentação mudou. Carrinhos cheios, de rodas tortas e rumo difícil, não aparecem mais. As compras para o mês, fazem-se à semana, contando o que se tem. Saudável passou a ser comer menos e até o pão já não conhece fartura. O quilo deu lugar ao meio, a fruta só da época, o peixe é carapau e a carne é suína, bicho que tudo dá, nada se perde, tudo se transforma. As aves ocupam lugar de destaque mas são as suas miudezas as grandes vencedoras.
Tem de se racionar, tem de dar, tem de ser. 

E em casa as lâmpadas reduzem-se, os banhos encurtam-se, os electrodomésticos desligam-se. É a luz natural que se aguenta até ao entardecer. É a manta que se coloca nas pernas frias para aquecer sem pagar. É o jornal que se lê oferecido na paragem.
Tem de se cortar, tem de dar, tem de ser.

E o resto? Os transportes dividem-se com amigos, as escolas privadas mudam para públicas, as horas nos ginásios fazem-se agora ao ar livre com caminhadas revigorantes, os livros novos são agora os dos antigos alunos, as chamadas telefónicas passam a mensagens e as unhas arranjam-se em casa. 
Tem de se mudar, tem de dar, tem de ser. 

Há quem escape, mas todos seremos punidos pela vida de ganância, ostentação e imoralidade vivida durante tempo a mais. Os sorrisos vão virar caretas, a bondade vai tornar-se egoísmo, o credo vai roçar a blasfémia e o homem vai apodrecer. 

Preparem-se as almas, pois o futuro não é, nunca o foi e dificilmente voltará a ser... FÁCIL

CSD



terça-feira, 20 de setembro de 2011

A BOCA DO INFERNO

A Boca do Inferno
Há quantos anos eu não visitava este lugar onde a natureza bruta pinta os seus quadros? Mas regressada a casa, parece que tudo está por rever e recordar. O concelho de Cascais, mais propriamente o Guincho, foi o destino escolhido por nós, numa bela tarde de Setembro, para se assinalar uma data merecedora de festejo.


Boca do Inferno
O caminho leva-nos pela Marginal que continua bela e sinuosa tal como outrora. E o Bugio lá está, sempre atento a quem passa. Apesar das primaveras que já floresceram, ainda sou do tempo em que aproveitando domingos soalheiros, as famílias rumavam estrada fora nos seus carros de fim de semana, polidos e artilhados, em direcção ao Guincho, naquilo a que se apelidava de "passeio dos tristes". Triste não era o passeio, mas sim a falta de imaginação dos veraneante em escolher novos roteiros turísticos!


O almoço de festejo foi à beira mar. As Furnas do Guincho é um daqueles renovados restaurantes que insistem em dar abrigo alimentar há mais de 30 anos. Aquele imenso oceano Atlântico, cuja cor escura esconde tesouros, embalou com as suas ondas o nosso manjar.  As gaivotas também marcaram presença cantando sinfonias de amor. 


Oceano visto do "Furnas do Guincho"
E a Boca? Essa lá estava escancarada, no seu intenso engolir, amedrontando os temerosos e deslumbrando os audaciosos. Se o inferno é assim, não o sei dizer, mas as gotas que nos atingem atiradas pelas vagas mais fortes, têm sabor a medo. Sem o "ah!!!" de espanto não se pode dizer que passámos pelo Guincho!! 


Boca do Inferno
Já no regresso, umas queijadinhas de Sintra compradas à beira da estrada do concelho vizinho, adoçam a boca ainda escancarada de admiração.  Mas há mais para adquirir, tal seja a vontade de quem por ali se perde nas tardes de agora ou do antigamente.

Apesar do tempo passado, as excursões dos mais vividos insistem em visitar a Boca do Inferno, abrindo, também eles de espanto, as suas bocas descompostas. Lá na terra não há disto, e vão ter o que contar.    

A tarde ía avançando e outros compromissos surgiam. Deixámos o Guincho e a famosa Boca do Inferno satisfeitos com a recordação. O tempo passa mas a natureza permanece igual às nossas memórias.  


CSD

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

BOLIDES COM ASAS





A tarde soalheira deu o mote para a criatividade. Vindos dos mais diversos cantos deste pequeno território, os artistas mostraram sem pudor ou receios as suas mais novas criações e apostas em quatro rodas. Assim era o propósito deste Segundo Grande Prémio Red Bull: a corrida mais louca do mundo.



O sol da tarde queimava as peles desnudadas deste início de Setembro. À hora marcada, centenas de portugueses e estrangeiros enchiam os maravilhosos jardins do Parque Eduardo VII, bem no centro de Lisboa. 








Rodeados por uma vista soberba, foi à primeira cornetada que começaram a descer à força da brisa e de uma aerodinâmica estudada, os carros mais bizarros e divertidos. Houve modelos para todos os gostos.




Os temas igualaram os carnavalescos e não faltaram as chalaças à situação nacional, coisa esquecida naquela tarde de domingo e naqueles jardins. Tal espectáculo era gratuito e é assim que o povo gosta.  Ao som de gargalhadas e palmas, os 70 concorrentes esforçavam-se para, no menor tempo, chegarem à meta lá bem junto ao grande Marquês de Pombal.  O caminho foi delineado por fardos de palha e com troços sinuosos, esperando proporcionar desafio a quem corria e "ais" a quem assistia. 




Adultos e crianças vibraram com as novidades auto e com os disparates dos dois apresentadores sobejamente conhecidos na praça pelos seu comentários muitas vezes incongruentes. E nos ares também houve espectáculo! Logo ao início da tarde, um pára-quedista lançou-se em voo livre deixando no ar um rasto vermelho. Ao longo da tarde balões de várias cores levavam para espaços longínquos lá para os lados do rio Tejo, latas do famoso líquido patrocinador deste espectáculo. Estas ganharam asas verdadeiras! Onde caíram, ninguém sabe, mas foi bonito de ver.



E o constante passar de aviões nacionais e estrangeiros em direcção ao nosso aeroporto foi prova provada que Portugal continua a ser um grande destino. 

E assim se passou uma bela tarde domingueira. Para nós, teve sabor a boas vindas!

CSD

terça-feira, 6 de setembro de 2011

A BATALHA DA INSTALAÇÃO


Chegámos de armas e bagagens. A batalha da instalação era o passo seguinte. O deslumbramento e a satisfação nascidos no regresso, deram lugar às gotas de suor com cheiro a limpeza e a arrumação. As obras também marcaram presença, pois casa fechada é esconderijo de deterioração. Paredes partidas, roços abertos, rachas lixadas, pinturas feitas e muito pó acumulado. Aspirador e esfregona andaram na vanguarda da luta, combatendo a poiera escondida nas trincheiras. Foram dias de guerra árdua. Depois, seguiu-se o sarar das dores provocadas pelo esforço e o embelezamento destas paredes outrora despidas. Varões montados, cortinados estendidos, candeeiros afixados, quadros pendurados e tudo ficou mais bonito. Ainda se aguarda o resto dos haveres, que navegando Atlântico fora, se vão aproximando cada vez mais de Portugal e desta mesma casa.  Agora a paz podia entrar. Findos os confrontos, podemos chamar nossa, a esta casa.

CSD

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

PORTUGAL, MINHA TERRA

Parque Eduardo VII em Lisboa
D. João de Castro levantou voo e com lotação esgotada subiu aos céus rugindo os seus motores num adeus sentido a Moçambique. A grande cidade ficou indiferente mas as palmeiras acenavam os seus ramos, querendo despedir-se. O que outrora parecia vida, ia perdendo agora todo o encanto. E eu, olhando pela janela deixei escapar uma lágrima minha que disse adeus a África.

Dentro daquele espaço agora envolto num manto de nuvens brancas, os pensamentos de locais, emigrantes, expatriados e turistas, voavam também em direcção a outras paragens. De férias, a trabalho, em missão, ou simplesmente mudando de vida, todos preparavam corpo e alma para a longa jornada que se iniciava. E eu, conformada com a longa espera, ansiava já pela minha terra, pelo meu Portugal.

A chegada foi igual a todas as outras. Esperava-me de braços abertos uma Lisboa solarenga, dinâmica e cheia de turistas deslumbrados com a minha capital. E esta cheira ainda melhor quando se chega para ficar. E que bom que foi chegar à minha casa, ao meu verdadeiro ninho! Olhando pela minha varanda percebi que o sol estava lá e a vista de mar também. As acácias foram substituídas pelos pinheiros e oliveiras e as gentes essas, sempre acolhedoras e eficientes. Afinal, é bom estar em Portugal!

Deixei um Moçambique igual ao que me acolheu. Não impus a minha marca mas o que vivi, marcar-me-à para o resto da vida. E é assim que tem de ser quando o que foi, já não é nosso. Viro, por isso, uma página da vida sem mágoa ou nostalgia. E ao chegar, encontro um Portugal também ele a tentar mudar e sinto profundamente que agora, é aqui o meu lugar.

Aos meus leitores e seguidores prometo continuar a contar as minhas vivências, desta feita em terras lusas. Ou outras, quem sabe!?

CSD

sexta-feira, 29 de julho de 2011

AMBANINI MOÇAMBIQUE

Cidade de Maputo
Deixo Moçambique com sabor a pouco. 
Levo no coração dois anos compensadores em vida e alma. 
Aqui renasci depois de um tempo perdido noutras terras. 
Aqui fiz amizades verdadeiras, conheci gente diferente. 
Aqui VIVI.

Deixo a terra do sol, das praias, do calor.
Deixo as comidas boas com cheiro português.
Despeço-me das gentes pacificas, trabalhadoras.
Fujo dos trapaceiros que me fisgaram, procurando vida melhor.
Deixo uma cidade que respira progresso.
O resto, é uma terra parada no tempo à espera de crescer.
Mas esse estagnar, lapidou-me.
Parto mais pura e menos consumista. 
Parto mais solidária, mais humana. 

Vi muita coisa bonita. Por ela vou suspirar.
Também vi o que não devia existir. Mas a sociedade revela-se pobre.
As minhas lágrimas não resolveram, mas foi assim que reagi.
A simplicidade que mostram não é opção, é imposição. 
Ajudei conforme pude, sendo ajudar tarefa difícil.
Mas há gente lusa que continuará a trabalhar.
 Renascerão sorrisos nesses lábios adormecidos.
É esta a humanidade que Deus deseja.

Foi também aqui que nasceu este blog.
Com ele iniciei o relato das minhas vivências: vivências contadas.
Amigos e desconhecidos recordaram esta terra.
Para outros, foi tempo de feliz descoberta. 
Foi com este blog que libertei a minha escrita.
Foi Moçambique que me deu o que contar.

Lourenço Marques de outrora, foi a cidade onde me conceberam. 
Quiz o destino que nascesse em Portugal.
Voltei criança para viver a infância e voltei agora, no estado adulto.
No meu sangue corre Lourenço Marques, Nampula, Porto Amélia.
Nos meus genes sempre houve e haverá Moçambique.

Volto a partir, levando estas vivências únicas bem guardadas no coração.

Itavonana Moçambique.

CSD

Ambanini: Adeus
Itavonana: Até qualquer dia. 

terça-feira, 26 de julho de 2011

FALTA POUCO PRA QUASE!

Eles madrugaram e com calma, muita calma, aquela calma moçambicana, lá vão no serviço. Bem grifados com as roupas do job, entraram porta dentro, carregados. Traziam nos braços caixas de vários tamanhos, cartões e papeis. Sem convicção e com gestos mecânicos, despojaram-se dos casacos que tapam o frio. Entrando devagar, traziam aquela cara do estou a vir e do hei-de fazer, e começaram a tomar conta do espaço. Quatro eram os homens destinados a embalar.  Não é um job que gramem maningue, mas lá se prepararam para fazer o mesmo de todos os dias. Os cartões outrora espalmados começavam a ganhar formas. E de fita auto colante sempre à mão, cintavam, apertavam, modelavam cada cartão, fazendo nascer uma caixa. As tralhas que compuseram os nossos dois anos de África começaram a desaparecer dos seus locais de exposição. Sem estima ou nostalgia, os nossos haveres foram abafados em papel e encafuados em caixas.  A manhã foi passada entre o rostilhar do papel e o arrastar do cartão. Djobaram até àquela hora das doze. A tacha foi acompanhada por uma escura, oferta da casa!. Sem mafiar, também a tarde foi bizi, e após ultimarem as tarefas, chegava a hora de bazar.  A casa ficou cheia de volumes à espera de transporte para outras terras. E eles, estilando com jinga, lá foram porta fora, rumando às damas e preparados para enjoya laifa.

E isto, foi taipado no computador!

CSD

terça-feira, 19 de julho de 2011

FRESCURA DE JULHO

Anoitece cedo, neste inverno traiçoeiro. 
Deste lado do mundo, Julho não é verão. 
A escuridão súbita desce cedo, quase sem aviso, e a luz do lanche já é artificial.  
As ruas brilhantes alumiam os caminhos daqueles que regressam a casa. 
As peles desnudadas arrepiam-se com os ventos mais frescos.
As acácias fecham-se, preparando-se para dormir numa noite fresca e parca em humidade.  
A aragem entre portas, refresca em demasia estas casas talhadas para verão. 
As mantas saem dos armários e tornam-se apetecíveis. 

Pela manhã, as roupas que cobrem os primeiros corpos madrugadores são um misto de leve e pesado.
Gorros de lã na cabeça, camisas frescas junto ao corpo e escondidas por blusões polares, capulanas enroladas mimando os ombros, calças finas e leves mais os chinelos no pé, fazem desta indumentária a moda possível.  
Mas o sol deste inverno é quente e envolve progressivamente os corpos deambulantes.
Despertando os seus raios, este sol vai abraçando e aquecendo numa lanzeira contagiante.
Gorros e blusões são despidos e sente-se novamente verão. 
Mas os ventos que se levantam ao entardecer lembram-nos que verão não é não. 
Cruzam-se os braços, encolhem-se as costas, juntam-se as pernas, massaga-se o corpo, arrepia-se a pele.
Está fresco e é inverno.

CSD

domingo, 10 de julho de 2011

QUEREM SABER O FIM DA DANÇA DA ANTENA?

Muitos foram os locais visitados nestes últimos dias do mês de Junho. Muitas as conversas tidas. Antenas algumas, mas não para o meu carro. A Toyota também não a tinha e se a tivesse, era o quadruplo do preço, fora a mão de obra! Questionei-me se as da Toyota seria em ouro!! Para mim bastava uma simples que voltasse a trazer som para dentro do meu carro. 

Farta de "dançar" (sem música) pela cidade das acácias, decidi telefonar ao rapaz electricista da camisola laranja.

"Abibu, o teu amigo ainda tem a antena para o Prado?"

"Tem."

"E quando é que podes montá-la?"

"Qualquer dia."

"Pode ser amanhã?"

"Sim, pode ser."

"Então amanhã por volta das 8h30 estou aí. Ok?"

"Ok."

Tratando de orientar a minha vida em função do combinado, apresentei-me no local já conhecido, lá no fim do beco. Uma série de homens trabalhava cada um no seu oficio. Bate chapas, pintor, electricista ou simples lavador, levantaram a cabeça à entrada do meu carro verde e da minha pessoa. Percebi de imediato que aquela matrícula era pouco vista por aqueles lados.

Abibu, acercou-se-me e disse: "pode ser às 11h?" 

"Às 11h?! Então disseste-me que podia vir agora!"

"Mas surgiu um trabalho...."

"Bom, mas eu não vou ficar 2 horas aqui à espera!"

"Podes ir comprar a antena e ficas já com ela."

"Eu é que vou comprar a antena!? Então não combinámos que a tinhas hoje para montar?"

"Ok, dá-me lá 5 minutos que já vou comprar."

Vendo a minha vida já azeda, aguardei com pouca confiança. Passados uns minutos, que não sei precisar quantos, lá passou por mim o rapaz de camisola laranja. "Vou buscar a antena."

"E vais buscar onde?"

"É ali em baixo. É perto. Volto já."

As distancias aqui, são o que são! Aguardei convencida de que iria "dançar" novamente! Mas até não. O rapaz não demorou muito e lá apareceu com uma geringonça em punho, que só percebi ser a minha antena, pela haste prateada que se mostrava. Atrás dele outro rapaz, desta feita de blusão castanho. Como Abibu tinha trabalho, delegou o seu, no outro amigo. Nada se perde....  

Bom, colocada a viatura em posição foram iniciadas as hostilidades para arrancar a velha e inserir a nova antena. E digo hostilidades pois não foi tarefa simples. A coisa que é sempre fácil na venda, torna-se complicada no acto. A cobertura de protecção da roda mostrou-se teimosa e logo aí o tempo perdeu-se. Pelo buraco possível a velha cedeu o seu lugar, embora não sem esforço. A nova preparava-se para entrar mas estava difícil. A peça da velha antena perdeu-se, as anilhas prateadas não encaixavam, as roscas não apertavam, os cabos já tinham sido cortados, as borrachas não tinham lugar e o meu sistema nervoso começou a tomar conta da minha mente. Mas onde é que me vim meter!!!

"Tenho de entrar para desmontar o rádio."

"Desmontar o rádio!!? Mas para quê?"

"Para cortar o fio lá dentro. Vou lavar as mãos."

Sem saber o que pensar fiquei assustada, muito assustada até! Mas felizmente Abibu apareceu e salvou o meu rádio.

"Não precisa. O cabo é este. Corta lá."

E muitos foram os colegas que também passaram por ali e opinaram. Deduzi eu que eram mais dicas que opiniões, pois changana continua a não ser o meu forte! E eu, farta de ver o que quem estava não via, comecei também a dar as minhas indicações, desta feita em puro português. Há coisas que se manifestam no nosso cérebro mesmo não tendo especialidade. Basta raciocinar! 

"Essa peça não pode ser daí. Onde está a peça oval que tapa este orifício? Não pode ser esta peça redonda! Vê lá na antena velha!"

Como se luz se tivesse feito, o rapaz do blusão castanho foi à sua sacola e a peça oval de borracha apareceu como que por magia. Começava tudo a encaixar melhor, mas pouco! Antena foi metida com esforço, as roscas apertadas à tangente, as ligações foram feitas embora sem perícia, e eis que falta um adaptador!

"Precisa comprar um adaptador para fazer esta ligação. É para o cabo do rádio. É para levar lá para dentro."

Eu é que vou comprar?! Tu é que sabes o que precisas. E onde é?"

É aqui ao lado."

Ok, eu dou-te o dinheiro e tu vais comprar!"  

Mas felizmente, passou outro colega "opinador" que mostrou como a aquisição da peça era desnecessária. A ligação era directa e pronto. Eu, já saturada, nem questionei. Sair dali era imperioso. Duas horas a ver mestres aprendizes a trabalhar, era dose suficiente para uma mulher! 

Pagamento feito, rádio a funcionar, esgueirei-me pelo beco esperando sinceramente que a antena não  cale o rádio nos tempos mais próximos. Não quero voltar a dançar sem música!

CSD

terça-feira, 5 de julho de 2011

E O SONHO SEM CHINELO?

Passaram-se seis meses e a familia do irmão José, aquela cujo sonho de um melhor calçado alimentava a vida, continuou a sua luta. Palmilhando as estradas da cidade mãe, levantando-se a cada alvorada, todos eles partiam diariamente desta feita para destinos diferentes. A vida dá voltas, mesmo com chinelo no pé.

O verão acabou e com ele as chuvadas que fazem dos chinelos um inimigo. As terras alagadas, as ruas sujas e os rios revoltos que fustigam as falanges, finalmente começaram a secar. Mas o inverno que agora chegou, não é amigo melhor. As temperaturas mais frescas e a humidade menos sentida fazem destes ossos descobertos um alvo prefeito para as frieiras. O sonho era maior no inverno.

Com os seus clientes bem definidos, o irmão José vendia a cada dia o que os outros necessitavam de comprar. O negócio da venda estava-lhe no sangue e era isso que mais gostava de fazer. O pão e a salsicha rosada era mata bicho sempre desejado. Os ovos cozidos agora também vinham consigo. Mas o irmão José por vezes trazia novidade e nesses dias, a receita aumentava. O biscoito tinha saída e quando a mãe Janete tinha a mão bem medida, não havia quem recusasse um miminho para os seus estômagos pouco habituados.   

"Hoje tlem novidade?" perguntava o chinês encarregado da obra, olhando de esguelha a caixa adicional.

O irmão José destapando com orgulho a caixa plástica, mostrava as relíquias docinhas da mãe Janete.

"Tem e são dos verdadeiros!", respondia o irmão José, contente por agradar.

"Dá-la tlês". Dizia o chinês já com o suco das papilas a espreitar na boca cravada de dentes pequenos. Conhecia bem o gostinho daqueles biscoitos!

"Se quiseres arranjo-te uma lata cheia dos bons, em troca dessas botas!" 

Este era o lado negociador do irmão José. Mesmo usadas, satisfaziam bem o seu sonho! 
O chinês não esperava tal proposta. Olhou para as botas, olhou para o irmão José, olhou para a caixa plástica. Regalar-se com uma lata cheia daqueles biscoitos parecia um sonho! Mas as botas... essas faziam-lhe falta! Mas os biscoitos valiam o negócio. Como encarregado de obra bem que podia pedir um par novo! 

"Ok, amanhã trlago-te as botas! Não esquleças os biscoito".

O irmão José não cabia em si de contente. Finalmente teria as botas! Aquelas do seu sonho!
E as moedas também foram enchendo de volume os bolsos do irmão José. Sabia que a novidade dava dinheiro e era por aí que tinha de investir. Assim, já podia pensar noutro sonho.  

Ainda a manhã estava a despertar, já o irmão Joaquim passeava o Bóris e a  Dóris em plena avenida. Perdendo-se um dia nos seus pensamentos decidiu que a venda não lhe estava destinada. Ao contrário do irmão José, o falatório não era o seu forte e por isso agarrou a oportunidade surgida. Agora estava empregado em casa de molungo e os caninos eram a sua responsabilidade. Estes Pastores era finos! Em troca de segurança recebiam tratamentos e mimos que ele próprio desconhecia. Os silenciosos quilómetros matinais diários destinados ao esticar de pernas dos seus protegidos, colocavam-lhe as ideias em dia, e passada a passada, organizava o seu sonho de tratador. O irmão Joaquim sabia que a dedicação era o passaporte para o sucesso. Quem trata bem do fiel amigo, agrada ao seu dono! Com o primeiro ordenado compraria aqueles ténis que amansariam os quilómetros madrugadores e realizariam o seu sonho de teenager. E até já sabia bem a cor que eles teriam: vermelho como o seu benfica!

A irmã Joana continuava a bater perna pela cidade. Sempre com alegria no rosto e passada achinelada, levava à cabeça a fruta da época. Essa, a época, não estava para grandes aventuras mas a irmã Joana não se podia queixar. O seu porte airoso, as suas formas redondas e a sua pela negramente brilhante conquistavam clientes, que mesmo sem fome, metiam conversa só para a verem sorrir. Gostava desta vida, gostava de ser assim, gostava de si. Nos seus sonhos imaginava-se passeando com porte de senhora e sandálias elegantes. E era assim que percorria Maputo: molunga e chique. O sonho e a realidade eram diferentes mas não no pensamento de Joana. O seu sonho deixara de o ser, porque era-o todos os dias do ano. 

A mãe Janete gostava mais de a ver por perto. Queria ajuda na venda. Mas era difícil prendê-la, bem o sabia. Nos seus tempos áureos, também esta Janete agora pesada e roliça espalhava o seu charme pela cidade para deleite dos homens citadinos. De alguidar em riste vendia fruta, legumes e simpatia. Foi assim que conheceu o pai Júlio. A conversa ligeira tocou ambos os corações e a união foi destino. Mas agora com o mercado em obras, a venda estava esquiva e a mãe Janete aliou-se à prima Julieta para maior oferta. Os legumes da mãe Janete ladeavam agora com as frutas e as especiarias da prima Julieta. A ampliação do negócio sempre fora um sonho da mãe Janete e uma ambição da prima Julieta. Sentadas à espera do negócio, sonhavam com dias melhores e pés mais aliviados.

O pai Júlio, esse continuava a matar o vício daqueles que o têm e a vender crédito no cruzamento habitual. A vida continuava igual e o sonho por realizar. Aquelas botas mágicas, aquelas do Ogre, era coisa de filmes bem o sabia, mas continuava a sonhar com uma maior presença na vida dos filhos, na vida familiar. Mas agora a seu lado estava o filho Jaime. Já com corpo de moço mas cabeça de menino, segurava bem a sua verga com os amendoins torrados e bem fresquinhos.

"Amendoim, senhora? Está fresquinho."  

"Hoje não preciso, obrigada."

"Vá lá senhora, é para dar sorte! É a primeira venda do dia".

A senhora olhou com curiosidade aquela criança, e sem saber como, comprou cinquenta meticais daquele fruto seco.  O pai Júlio que ao longe assistia ao despontar do filho, sorriu de orgulho e de esperança. Assim sim, tínhamos vendedor! O colete de crédito da concorrência aumentava os meticais. A  maior oferta gera dinheiro.

Os outros dois filhos, ainda pequenos o suficiente para receberem sem trabalhar, estariam agora na escola. O irmão Jorge e a irmã Jamila aprendiam na escola do bairro as letras que a professora sabia e conseguia ensinar. Numa turma de demasiados, cada um lutava pela sua cultura. Ouvir era fácil, apreender era outra conversa. Com as cabeças ainda cruas de responsabilidade, era na escola que o pai Júlio depositava as esperanças de vir a ter filhos importantes. Quem sabe, médicos? Ou melhor ainda, políticos? Tinha de esperar para ver crescer. E eles, os putos, teriam de se fazer à vida se queriam vida melhor. 

E no final do dia, todos reunidos de volta da janta, contavam suas vivências e faziam projectos para um futuro melhor. O sonho continuava para alguns. Os outros, já nem pensavam nele. O inverno daria lugar ao verão e às mesmas aventuras de sempre. E com o verão viria o Natal. E no Natal receberiam a força de Deus e a boa vontade das senhoras voluntárias. A política de mão estendida aqui é natural e necessária. A vergonha e o acanhamento não moram nestas gentes. E se Deus quiser, a mãe Janete teria este ano no seu chinelo velho, aqueles bons e confortáveis tão sonhados.

Por vezes é a própria vida que dá voltas ao sonho.

CSD

quinta-feira, 30 de junho de 2011

ESTE, É PARA OS DE MOÇAMBIQUE.

OBRIGADA, MUITO OBRIGADA 

a todos os 1.000 visitantes que em Moçambique me concederam um pouco do seu tempo e se detiveram a ler as minhas linhas. Estando nesta terra de passagem,  procuro escrever sobre as minhas vivências com a justiça e isenção possíveis, relatando assim as viagens, os encontros e as situações que dia a dia compõem a minha vida. 

A quem me apoia, a promessa de que continuarei, onde quer que esteja, a relatar, denunciar, opinar, dando assim a conhecer ao mundo o meu pensar.

CSD

sexta-feira, 24 de junho de 2011

AS VOLTAS DA ANTENA

Este não é conto, é verdade.

Nada é eterno e também as antenas auto fatigam-se de procurar as ondas. Um dia recusam-se a receber e a informar. O silêncio instala-se dentro de portas. E o silêncio para quem conduz é sinónimo de monotonia e tristeza.

Numa das ruas mais profundas de Maputo, o povo deambulava manhã cedo. De cabazes às costas, o peso dos seus produtos era esperado em meticais no final do dia. Rua acima, rua a baixo iam palmilhando os quilómetros da Kim Il Sung. E eu, na minha viatura silenciosa, ia em marcha lenta, ora à direita, ora à esquerda tentando descobrir aquele sitio onde o som volta a fazer-se escutar. Finalmente a vivendinha apresentou-se-me. Devidamente estacionado no separador central da avenida longa, dirigi-me cheia de esperança ao técnico do som. 

"Bom dia, faz favor?" Diz-me nitidamente a dona do estabelecimento. A cara de poucos amigos é apanágio dos indianos!

"Bom dia, necessitava de saber se reparam antenas?"

"Reparar não reparamos. Temos é o produto para venda".

"E não têm ninguém que me possa ajudar a perceber o problema?"

Dirigindo-se ao intercomunicador, a filha da dona, igualmente de poucas falas e simpatia, chamou: 
"Florencio, peço para vir cá cima".

Aguardados alguns minutos lá apareceu o Florencio. Mais interessado num papel exposto do que saber o motivo de ter sido chamado, deteve-se por minutos a espiolhar a informação escrita. A dona, admirada com tal interesse, lançou-lhe aquele olhar que só os indianos patrões sabem lançar: 
"Vai lá ver o carro da senhora".

Florencio, nitidamente cheio de frio nesta manhã fresca de Junho, cruzou os seus braços e apertando o macacão lá me seguiu os passos. Eu, mais lesta o que podia, abri as portas para iniciar a demonstração da avaria. Sem grandes cerimónias eis que o Florencio se acerca do outro lado da viatura e decide entrar. Eu de fora e ele já dentro! O frio era muito e Florencio estava bem mais quentinho dentro de portas. Bom, decidi entrar também. Já os dois lá dentro, iniciou-se a explicação da minha visita. 

"Isto é um problema do motor da antena". Avariou".

"E tem concerto?"

"Nada!" Tem de comprar novo".

"E vocês têm para venda?"

"Ish! Tem só universal, mas vai ficar caro!"

"E, caro, é quanto?"

"Perto de 4.000!" 

"E qual o problema de ser universal? 

"Depois estas funções aqui não funcionam". E foi-me apontando para dois botões no interior do carro.

"E é uma coisa complicada de se fazer?"

"Não, é só abrir, tirar a peça, por nova e ligar as fichas. Mas podes ver ali se tem. Só vais encontrar a original nas lojas de material usado."

"Ali, onde?"

"Ali, estás a ver aquela palhota? É lá ao lado. Perguntas se tem antenas automáticas para Toyota Prado. Já fica mais barato. Se não encontrares, vais ao mercado Mandela".

"E esse mercado fica onde?"

"É lá na rua de trás, tens logo ali, quem vem daqui".

"Ok, obrigada. Vou primeiro ver se aqui tem." As direcções desta gente, só eles as entendem! 

Atravessando a rua movimentada, entrei num cemitério de peças. Retorcidas ou não, enferrujadas pouco ou muito, todas estavam expostas no pátio como se de um museu de velharias se tratasse.  Lá no fundo uma porta que presumi ser o atendimento. E presumi bem, pois logo apareceu outro indiano de barba farta. Olhou para mim como um bicho raro, pois as damas indianas jamais frequentariam um local daqueles! O abanar da cabeça fez-me perceber que estava disposto a escutar-me. A minha pergunta já conhecida foi desta feita dirigida pelo patrão a um funcionário negro. Este, lá procurou e empunhou uma antena. 

"Temos esta".

"E essa é para o Toyota Prado?" Questionei eu.

Procurando alguma identificação inscrita na peça e não encontrando a resposta, perguntou a outro patrão indiano à direita. Este pegou na peça e procurou também. 

"Acho que esta é para o Surf".

"Ok, mas serve para o Prado?"

Olharam-se sem se pronunciarem. 

"E então, o que é que faço?" Perguntei eu já secamente!

"Tem de perguntar ao electricista."

"E onde está o electricista?" Confesso que a minha paciência começava a dar sinais de inquietação apesar de achar graça a toda esta forma de relacionamento.

"Está a ver aquele moço lá? Lá!"

O "lá" era do outro lado da avenida, num beco. De facto estavam lá três rapazes. 

"É o de camisola laranja?"

"Yha! Esse é electricista. Pode lá perguntar".

E atravessando uma vez mais a avenida que seguramente começava a conhecer os meus passos, lá entrei no beco. O rapaz estava empoleirado num corrimão, aquecendo-se ao sol e com o seu celular em punho.

"Bom dia, você é electricista?"

O rapaz de camisola laranja ficou um pouco surpreendido, mas anuiu.

"Bom, eu necessito de saber se uma antena automática de um Surf serve num Prado?"

"Não. Não serve". O pragmatismo surpreendeu-me. O rapaz ao lado também disse que não. Pelos vistos, tínhamos dois electricistas!

"E onde é que eu posso encontrar uma para o Prado?"

"Yish! Vais dançar!"

"Vou dançar! Vou dançar quer dizer o quê?"

"Vais dançar." repetiu ele abanando a cabeça. "Espera lá, vou perguntar a um amigo". 

Depois de escrita a mensagem, veio a resposta. 

"Ele tem." 

"E quanto custa?"

"Leva 2000".

"E tu por montares, levas quanto?"

"Eu, 500."

"Mas podes procurar no Bakir ou nas casas de material usado. É lá na 25 de Setembro. Estás a ver as jantes? É logo lá." Esta dica foi-me dada pelo outro rapaz, desta feita de camisola branca.  

"Ok", disse eu. "Dá-me o teu número. Se não encontrar, falo contigo depois".

E parti cheia de informação de nada.  Após conversa com amigos, fiquei na posse de mais lojas que poderão eventualmente ter a antena e voltar a trazer alegria para dentro do meu carro. Também a Toyota  tem representação por aqui e será visitada por mim. Mais cara será certamente. Resta-me aguardar um dia, em que a minha paciência esteja verdadeiramente paciente, para me dedicar a esta dança. 

Agora percebo o que "dançar" significa: Palmilhar e eventualmente, ser explorada!!

CSD

quarta-feira, 22 de junho de 2011

A TOMADA AOS MEUS OLHOS

O dia "D" chegou. 
O novo governo tomaria posse muito em breve. O momento era solene e de grande nervosismo para os  catorze futuros. Elas, as duas futuras ministras de vestidos ou "taillers", eles, os futuros ministros de fato e gravata com menos ou mais classe. Em questões de moda, o corpo também tem a sua influência!! Mas este novo governo prima pela juventude e em associação, os corpinhos são ainda ligeiros e elegantes.

A azáfama era tremenda. Os reporters e jornalistas multiplicavam-se para obter as respostas mais tremidas, as emoções mais nervosas, as atitudes mais inseguras e as imagens mais cristalinas. A chegada ao Palácio da Ajuda e à sala dos Embaixadores, foi ainda sem fausto nem luxo. Nas suas viaturas particulares, nos carros de familiares e até na lambreta, foram entrando já com o sentido da responsabilidade no peito. Todos estavam a poucos minutos de fecharem as suas vidas privadas e abrirem as suas vidas públicas. 

A cerimónia foi iniciada pelo Presidente da República, que num discurso sem ilusionismos, chamou à razão aquelas cabeças ainda jovens, sonhadoras e politicamente virgens. O momento era de glória, o futuro de trabalho. O sonho vivido hoje seria amanhã um pesadelo construtivo. Trabalho, seriedade, honestidade e humildade, precisam-se para que Portugal avance sem medos. 

O nosso Primeiro também discursou. E na mesma onda prometeu trabalho, concertação e transparência. O exemplo será dado pela extinção de alguns lugares de utilidade duvidosa e ainda pela abdicação da sua subvenção vitalícia. Gota a gota se trava o desperdício.   

E finalmente, com a voz carregada de emoção, os destinatários proclamaram as nobre e honestas palavras "Eu, abaixo assinado, afirmo solenemente pela minha honra que cumprirei com lealdade as funções que me são confiadas". Agora, é a valer! 

À saída e após os bacalhaus da praxe, muitos foram os que se esquivaram a comentários e considerações. Outros, por manifesto estado de evasão, acederam a responder. "espero ter muita sorte", "olhe isso é o que vamos ver, mas faremos o nosso melhor", "estou desejoso por começar", "agora vou almoçar e depois começarei a trabalhar", deixem-me aterrar", foram as respostas daqueles que segurarão nas mãos, o futuro bizarro de Portugal. Já nos seus carros de estados, partiram para a uma nova vida. Também os demissionários lá estiveram e lá partiram, desta feita nos seus carros particulares, e todos eles com o sentimento de dever cumprido. Mal cumprido é certo, mas cumprido!

Nas traseiras do mediatismo, as famílias desdobravam-se em correrias e saltinhos e biquinhos de pés para verem e acenarem aos seus entes queridos, fornecendo-lhes a força e a coragem necessárias para um dia de glória. Os vizinhos, os amigos, os conhecidos também lá estavam. Todos espreitando conforme a brecha permitida, para testemunharem o vínculo à nação. No final alguma desilusão, por não terem conseguido chegar à fala com os agora famosos. Mas a alegria era muita. O orgulho ainda maior. De ilustres desconhecidos, os filhos, os irmãos, os primos, os amigos eram agora altos dignitários nacionais.

Os "Homens da Luta" também lá estiveram no seu registo peculiar. Gel e Falâncio pedem o absurdo e difícil. Das palavras não saem sons construtivos nem de esperança. O gozo é uma constante e as criticas são disparadas em todas as direcções. A arruaça é o seu modo de vida. Cada um tem o seu papel e nesta sociedade, há infelizmente lugar para todos!

Opiniões, imensas. Incertezas e "des" e confianças ocuparam os noticiários durante os dias que se seguiram. A chamada de nomes mais ou menos conhecidos, a inexperiência de alguns, o tecnicismo de outros, fizeram parte das análises dos comentadores nacionais.      

Uma coisa é certa: Portugal não pode falhar e não falhará!


Que Deus ajude este novo Portugal.


CSD

sábado, 18 de junho de 2011

VIDE GRENIER

É agora ou nunca. A tralha é sempre a mais e não falta quem a queira!

Já com a despedida no horizonte, carregámos o jipe e lá fomos manhã cedo para o espaço da escola francesa. As portas foram abertas para um evento que é muito comum no norte da Europa: a venda de velharias ou bens já em desuso. Este ritual faz as delícias de muitos povos!!

Nós e muitas famílias alombaram as tralhas que já estorvam. Esperava-se que os duzentos meticais pelo aluguer da mesa tivessem retorno. A variedade era grande e a concorrência também. Perto de vinte mesas expunham os objectos que os donos deixaram de querer.
Escola Francesa de Maputo
Durante toda a manhã as bancadas de venda foram nascendo no espaço já conhecido da escola. De tudo foi possível ver! Á venda concorriam o bom e o mau, o intacto e o partido, o novo e o velho. 
Escola Francesa
Escola Francesa
Nesta espécie de "brocante", encontrava-se roupa e sapatália daqueles que já cresceram, brinquedos velhos dos que já procuram outros interesses, jogos de computador antigos e já muito conseguidos, vídeos já vistos, livros há muito lidos, artigos de puericultura que já não esperam bebés, artigos de "ménage" que já  alimentaram muitos seres, malas que já terminaram as suas viagens, bicicletas que não evoluem mais e electrodomésticos que há muito pediam reforma. Os preços variavam e as pechinchas pediam-se. 
Bancada do Afonso
E nós, com os nossos artigos fizemos algum sucesso. A nossa bancada era, pelo menos, a mais bonita! Vendemos o usado e o pindérico, mas o bom e o útil ficou sem clientes. As coisas que mostrámos aos outros eram boas, demasiado boas, para fazer abrir a bolsa daqueles que foram à procura. As necessidades são diferentes por estas bandas. A criançada cresce com pouco e as empregadas substituem o que por esse mundo fora se compra para simplificar a vida de pais e filhos.  

Esta manhã passada na escola rendeu o suficiente. A experiência deste evento vai-nos seguramente enriquecer. Vai-nos, no mínimo, obrigar a pensar no destino final dos bens, sempre que o nosso vício compulsivo nos fizer COMPRAR, COMPRAR, COMPRAR! 

CSD

quarta-feira, 15 de junho de 2011

PORTUGAL EM FESTA




10 de Junho.
O dia do nosso cantinho calhou numa sexta feira. Até nem calhou mal, pois as tardes das sextas desta terra são livres para alguns. 

Após divulgação cibernautica do evento pelo consulado e respectiva cônsul, tomámos consciência de que estava à vista uma festa de arromba. Dia 10 recepção, dia 11 festa na Escola Portuguesa de Moçambique.

No dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas não podia haver avareza e por isso convidou-se todo o bicho-careto! Eles eram tugas de coração, tugas de sangue, tugas de alma, tugas de simpatia e até tugas de oportunismo. Todos compareceram à hora marcada num dos locais mais "in" da cidade das acácias. Com mais formalismo ou mais parolice no vestir, foram entrando e de papo inchado foram cheirando os odores da nossa comida que, sumptuosamente exposta, aguçava as papilas gustativas de quem não resistia a olhar. 

Os hinos foram tocados em jeito de abertura cerimoniosa. Os discursos foram palrados com mais ou menos entusiasmo, o que se reflectiu na audiência. Nenhum dos oradores foi visto por aqueles que à porta estacionaram, tal a afluência que preenchia o recinto. Mil eram os convidados estimados. Que grande festança! Sem grande concentração ou entusiasmo ou respeito, o vizinho tornou-se mais importante que as palavras heróicas. Tal como na missa e na hora da paz, os beijos foram mais do que uma obrigação. Ora um ora dois, os perfumes foram-se misturando nas faces osculadas. O cumprimento à distância também foi uma constante. E o homem da pinga não teve mãos a medir. Finalmente os aplausos daqueles que perto do palanque se encontravam, deram indicação aos que nas costas estavam, de que as bocas se calariam e mordiscariam em breve. 

A qualidade foi indiscutível, mas a quantidade um exagero. Algumas das campânulas de bacalhau com natas ou stogonof ou arroz de pato ficaram invictas. Apesar de ninguém se fazer rogado e não haver espaço para cerimónias, o certo é que a fome não derrotou a fartura. As sobremesas estavam óptimas e consolaram todos os gostos. De chocolate, de ananás, de morango, de arroz, de pudim, todas estavam lá para regozijo dos mais gulosos.

E depois seguiu-se a conversa. Tempo houve para apresentações, para relatos, para perguntas, para gargalhadas, para discordâncias nos grupos que no recinto se iam formando. Tudo numa amena cavaqueira embalada pelo ruído de fundo das palavras dos outros, pelas imagens que na grande tela recordavam as belezas de Portugal e pela música tipicamente nacional. 

Na hora já adiantada, deixámos o recinto trazendo na alma mais Portugal. E no dia seguinte a festa continuaria.


11 de Junho
As portas da escola portuguesa abriram-se neste sábado para mais uma celebração nacional. A organização do Consulado de Portugal propunha um programa extenso, variado e cultural.

Aproveitando o fabuloso espaço da escola, a festa abriu os seus braços e recebeu quem compareceu à chamada. Entre exposições, ateliers de artesanato e pintura, havia um mundo para descobrir.

O cantinho das histórias para os mais novos.
Mais à frente as tendas da restauração foram surgindo, os odores espalhando e a malta mastigando as sardinhas, o frango, a entremeada, a feijoada, o caldo verde, o pastel de nata e tudo o mais que compõe a mesa daqueles que gostam de um bom manjar. Falhou o mangerico e as sempre típicas quadras versadas. As filas foram o único senão, mas a pressa não tem entrada nestes eventos.

Após o café, tempo havia para visitar o espaço, comprar os produtos à venda, ajudar as associações representadas, participar nas várias actividades desportivas, assistir a demonstrações de dança, escutar o grupo moçambicano, concorrer a prémios aliciantes e dar asas à arte.

Grupo Moçambicano
A Vista Alegre juntou-se a esta festa e fornecendo chávenas brancas, despertou a criatividade dos mais pequenos, que de pincel na mão, pintaram e embelezaram a porcelana nacional. Um júri decidirá o vencedor.
Chávena pintada pelo Afonso. O mais português possível! 
Os Galos de Barcelos também foram pintados, enchendo de cor este nosso Portugal a preto e branco. E a presença do humorista Herman José também veio, supostamente, alegrar a festa.
Galos de Barcelos pintados por crianças.
Em Junho o dia arrefece mais cedo, mas nem por isso os tugas abandonaram o espaço e a festa prolongou-se noite dentro.

VIVA PORTUGAL!

CSD