terça-feira, 10 de agosto de 2010

ILHA DE MOÇAMBIQUE E NAMPULA

Longe, muito longe, encontra-se um lugar histórico: a Ilha de Moçambique.

Ilha vista da ponte
Conhecida desde sempre como a pérola do Índico, impunha-se uma visita não só turística mas principalmente histórica. Assim sendo, tomámos coragem e rumamos ao norte de Moçambique, mais precisamente à província de Nampula.


Fortaleza




A Ilha de Moçambique foi capital de Moçambique até 1898. Dista de Maputo cerca de 2.150 quilómetros e de Nampula cerca de 176 quilómetros.



Este outrora importante pedaço de terra no meio do mar mede uns pequenos 3,5 quilómetros de comprimento por 500 metros de largura. A sua pequenez não consegue no entanto esconder, aquilo que foi, a importância que teve e a cobiça que despertou em muitos povos do mundo.

O voo da LAM foi cedo. 2h35 minutos é o tempo necessário para deixarmos a capital de Moçambique e aterrarmos em terras de Nampula, visivelmente mais pobres, mas nem por isso menos interessantes.

À nossa espera estava o transfere para a Ilha, conduzido pelo nosso motorista Vítor. De forma segura e por estrada surpreendentemente boa, percorremos as 2h30 minutos necessárias para se começar a avistar a ponte que faz a ligação com a Ilha.
Montanhas de Pedra

A viagem revela-se curiosa. Logo à saída do aeroporto de Nampula surgem-nos como por encanto enormes montes de pedra com formas imponentes. São chamadas de montanhas de pedra pelos habitantes locais. Estas saliências grotescas e aparentemente inóspitas dão alimento aos habitantes mais corajosos. Com mãos calejadas e braços fortemente hábeis, partem pedra diariamente, galgando a escarpa como alpinistas valentes. Os destinatários são as indústrias pedreiras de Nampula e arredores. Só assim conseguem auferir alguns meticais com os quais fazem face às básicas necessidades do dia-a-dia.

Após 20 quilómetros de estrada, aparece a primeira localidade; Anchilo. Um conjunto de casas feitas com tijolos de barro e telhado de colmo servem de abrigo às populações que vivem neste interior profundo de Moçambique. Casas e terra interagem num misto de cor castanha e cheiros húmidos.
Estrada fora seguiram-se outras localidades como Nacavala, depois Meconta e já com 86 quilómetros percorridos, Namialo. Nesta povoação ainda são visíveis fábricas, agora um pouco degradadas, mas que outrora produziram óleos, sabão, sisal e bolacha. As bicicletas e as motorizadas foram nossos companheiros de viagem, tendo sempre os homens como únicos ocupantes. Às mulheres está reservada uma marcha pedonal arrastada e sem vigor, levando à cabeça grandes carregos e às costas os filhos embalados nas capulanas. Que resistente é a mulher moçambicana!

Embondeiro
Mas a estrada insistia em ser percorrida e perto da vila de Nacololo, surgem-nos os campos brancos de algodão em ambas a margens e mais à frente as salinas. A Carapira, já a 125 quilómetros de Nampula, aparece-nos como terra de cajueiros. A placa seguinte revela-nos Monapo e com ela os fabulosos embondeiros, também conhecidos por boababs. Apesar da imponência da árvore, a sua madeira é de fraca qualidade e por isso não é aproveitável. São troncos gigantes, centenários, que apesar de despidos, insistem em manter-se orgulhosamente de pé.
A estrada é toda ela um centro comercial. Tudo se vende: banana, papaias, tomate, piri-piri, caju, carvão, amendoim, colmo, camas, roupa, etc. Muitos mercados a céu aberto que demonstram o pouco que se produz e se consome. Não necessita de muito para viver, esta nobre gente.

Finalmente à nossa esquerda, avistamos a Ilha.
Na baía do Mossuril, as vilas de Lumbo e Jemless representam o fim do continente e o início de uma ponte com 3,5 quilómetros de comprimento. A ponte é do nosso tempo, claro, como tudo o que iríamos vislumbrar a partir daquele momento. Com uma só faixa e há três anos em reparação, é uma bênção para aquelas gentes da Ilha. Devagar, a cada quilómetro percorrido aumentava a ansiedade e a curiosidade.
A primeira apreciação balança entre um misto de orgulho e decepção.
É notória a marca e herança portuguesas, mas o que os nossos olhos vêem são destroços de um passado grandioso.
A Ilha divide-se em duas partes: A cidade de Pedra e Cal e a Cidade de Macúti. A primeira pode ser considerada como a parte nobre, onde se localizavam as casas senhoriais, os grandes monumentos, as principais actividades. A segunda é o exemplo da tradição africana; casas rudimentares, construídas numa amalgama de ruelas e vielas abaixo do nível da estrada. Nos tempos áureos era a zona das pedreiras, dos currais, dos matadouros. Enfim, a zona menos bonita da Ilha.
Concluída a viagem, entrámos no Escondidinho onde o quarto 16 se encontrava á nossa espera. Decoração minimalista e rústica serviria de nossa casa nos cinco dias seguintes. Após instalação e almoço, partimos á exploração da Ilha no resto da tarde disponível.
As ruas são em terra batida e o pó é uma constante. A cada passada um sinal português. Apesar da Ilha ter recebido inúmeras influências, nomeadamente árabe, holandesa, francesa, inglesa, são as características portuguesas que despontam em pormenores. Casas, colunas, beirais, azulejos, portas, etc têm a mão portuguesa. Passo a passo, rua a rua lá fomos desbravando caminhos e descobrindo coisas nossas. Muitos são os rapazes que oferecem os seus serviços de guia, e foi com o Abdul que andámos no dia seguinte numa pobre explicação da Ilha. Toda a história está gravada na mente dos antigos, e por muito que estas novas gerações estudem, desconhecem muitos dos pormenores interessantes a revelar. A má utilização da língua portuguesa também não favorece a revelação dos segredos desta Ilha que tanto tem para contar.

Dos monumentos mais importantes podemos destacar a Fortaleza de São Sebastião, alvo de reabilitação, a Capela de N.ª Sr.ª do Baluarte, onde estão sepultadas figuras importantes da Ilha, a Igreja de São Sebastião, a antiga residência dos Governadores, a Igreja da Misericórdia, os Museus, antigo Palácio de São Paulo, o Sporting Clube de Moçambique, o Cine Teatro, o Convento de São Domingos, actual tribunal, o Hospital São João de Deus, o maior edifício da cidade, imponente e lindíssimo, a Casa de Camões, a estátua de Vasco da Gama e do próprio Camões, o largo Mouzinho de Albuquerque e muito outros legados portugueses.

Museu
É de salientar que todos estes monumentos se encontram muito degradados embora haja actualmente projectos para a sua reabilitação. Meteu dó ver tudo tão destruído, abandonado, esquecido. Mas apesar de tudo, foi e será sempre muito interessante de ver e saber.
Uma lufada de ar fresco são os Museus de Arte Sacra, Museu da Marinha e a Casa do Governador convertida em museu. Todo o espólio está bem conservado e consiste em porcelanas, quadros, tapeçarias, mobiliário indo-português, etc.

Estas verdadeiras obras de arte podem ser vistas e explicadas por um guia formado e bem conhecedor da história da Ilha. O bilhete contempla também uma visita guiada à Fortaleza, a não perder.

A venda de moedas antigas e pedaços de porcelanas é outra das abordagens ao turista. Muitos são os rapazes que nos perseguem com várias moedas na mão, datadas de épocas diferentes. Segundo eles, algumas destas preciosidades foram apanhadas no mar, provenientes dos grandes navios portugueses afundados ao largo, enquanto outras foram descobertas nas terras das machambas, bem escondidas nos potes de barro. Apesar dos preços, é sempre uma tentação possuir estas relíquias.

No terceiro dia resolvemos visitar umas das praias do continente, ditas paradisíacas, situada ao redor da Ilha de Moçambique. Praia da Carrusca foi o destino escolhido e o tradicional barco Dhow o meio utilizado para lá chegar. Segundo os nossos marinheiros experientes, a viagem duraria cerca de 45 minutos, mas a realidade revelou-nos outro tempo. 1h45 minutos foi o tempo dispendido para alcançar esta praia do continente.
À nossa espera um areal bom, branco, muito fino e água relativamente quente para este inverno ameno. Almoçamos uma excelente (embora demorada) lagosta, no único restaurante típico existente e começamos a pensar no regresso, pois as marés têm um papel muito importante nestas lides náuticas.
E foi aqui que vivi umas das experiências menos agradáveis destes dias de cultura.
Após alguns minutos de travessia com pouco vento, comecei a sentir que a minha veia de marinheiro não era das melhores. Uma enorme má disposição se abateu sobre a minha pessoa. “Lagosta ao mar” (se é que me entendem!) não foi suficiente para melhorar a minha situação. A costa ao largo, demasiado ao largo, o dia a findar e os ventos pouco cooperantes deram ao meu sistema nervoso motivos para se impor. À minha digestão já de si conturbada aliou-se o protesto intestinal. Mas no Dhow ainda não há WC. Podem imaginar a minha aflição!!. Aconteceu o inevitável, mas nada que uma boa banhoca no hotel, três horas depois, não resolvesse. Esta foi uma grande experiência de vida, para mim e principalmente para os marinheiros, pois a teimosia dos ventos obrigou á utilização de todas as técnicas náuticas, desde o remo, à constante mudança da orientação da vela, à vara para empurrar o barco nas zonas baixias e à abertura da vela para mais rapidamente navegar. Os cânticos dos marinheiros também se fizeram ouvir, numa ladainha cadenciada. Três horas depois, e mais duas horas do que o previsto, atracámos numa das praias perto da Fortaleza de São Sebastião. Foi uma experiência interessante mas que não voltarei a repetir. São de confiança os barcos tradicionais, mas o mar impõe-me muito respeito.

Hospital Central de Moçambique
No quarto dia, e já sem guia, aproveitámos para rever e descobrir outras partes da ilha, num dia mais calmo. Demos primazia desta feita à parte menos bela, à Cidade de Macúti. A pobreza salta-nos aos olhos como setas envenenadas. Como se pode viver assim? São centenas as crianças sujas e esfarrapadas que nos rodeiam e sorriem em troca de qualquer coisa. São muitos os adultos desocupados, sentados à porta do que chamam casa, à espera que o tempo passe. São ainda mais os velhos de olhar vazio, que nos saúdam amigavelmente. Poucas são as mulheres que ainda cumprem a tradição do Musiro; a cara pintada de pasta branca começa a ser coisa rara e só as mais velhas ainda a utilizam.


Casa em ruínas
Povo amistoso mas muito carente de tudo. Olham o branco como um quase extra terrestre. Foi assim que muitas vezes me senti; culpada sem ter culpa. A meio da nossa descoberta, a natureza resolveu refrescar-nos com uma chuvada tropical. Abrigados no edifício mais belo da Ilha, o hospital, observámos as grossas gotas de água a inundar as terras secas. O edifício é majestoso. Actualmente só uma parte funciona como hospital sendo as restantes alas utilizadas como habitações. Deve ter sido, em tempos, um grande hospital.
Para finalizar estes dias de cultura, escolhemos para último jantar um restaurante chamado Robertos. A céu aberto, num espaço muito agradável, foi sem dúvida o regresso a tempos mais ricos e o fechar com chave de ouro esta visita à Ilha de Moçambique.



O quinto dia foi o refazer das malas e o abalar pelo mesmo caminho, em direcção a Nampula. Olhando para trás, deixamos uma Ilha carregada de história mas despojada dos mais básicos direitos humanos; habitação, trabalho, higiene e saúde. Muito há a fazer. Cabe às organizações internacionais e principalmente ao governo português e ao moçambicano, o não voltar a esquecer aquele território que apesar de já não ser nosso, ainda tem muito de português. A nossa história merece ser preservada.

Nampula apresentou-se como uma cidade despida de história e de encanto.
A visita a esta cidade pretendia ser um reviver de velhos tempos por mim já vividos, mas não foi de todo conseguido. Nada me foi familiar.
Ainda conduzidos pelo nosso guia, percorremos durante uma hora os pontos principais da cidade. Uma vez mais a história nada dizia ao nosso jovem guia e todas as nossas curiosidades não foram completamente esclarecidas.

Catedral Nª Sª Fátima
Ao percorrer as grandes avenidas da cidade deparámo-nos com as casas muito degradadas. A zona militar com a Academia Militar e a Praça dos Heróis também já nada guardam dos nossos tempos. Av. do Trabalho, Av. 25 de Setembro, Av. Eduardo Mondlane, Av. da Independência, foram sem dúvida traçadas com visão, mas hoje nada têm para mostrar. Aproximava-se a hora de almoço e por indicação do guia entrámos num dos restaurantes mais antigos da cidade. Na Av. Eduardo Mondlane encontrava-se o Sporting Clube de Nampula. Apesar de não ser da minha cor, almoçámos bem. A proximidade do museu despertou-nos algum interesse. 200 meticais foi o custo do ingresso no Museu Nacional de Etnografia de Nampula. Muito simples mas bem demonstrativo das realidades moçambicanas Macua e Maconde. Nas traseiras uma grande mostra de artigos tradicionais Maconde.
Aproveitando ainda algum tempo para o embarque, visitámos na Av. Josina Machel a Catedral da Nossa Senhora de Fátima. Bela catedral que faz as delicias dos poucos cristãos de Nampula. Com o arrefecer do dia, e a hora do embarque a aproximar-se, rumamos ao pequeno aeroporto de Nampula para mais um voo LAM.

Deixámos para trás uma Ilha degradada mas carregada de história, e uma cidade pouco evoluída cujos traços portugueses estão muito envelhecidos. No entanto, a carga de história que trazemos na memória é algo que nos marcará para sempre.

CSD

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